quinta-feira, 8 de julho de 2010

Eu, a revista Planeta, o James Lovelock e a Teoria de Gaia - Haverá salvação para algum de nós?

"A Terra é nossa Mãe
Devemos cuidar dela
Unidos minha gente somos Um"
(Canção popular que cantamos numa peça de educação ambiental em São Thomé!)

A revista planeta é uma revista pseudomísticocientífica que fazia o maior sucesso na década de 70 e agora é meio esquecida pelo público geral. Haviam pilhas e pilhas de "Planeta" na casa da minha mãe, que foi uma colecionadora nos tempos áureos da publicação. Quando eu tinha uns 12 anos de idade ficava deitado lendo nas revistas da minha mãe matérias do tipo " Descoberto Médium Voador na Alemanha"; "OVNI avistado no interior de Minas Gerais"; " Garotinhas irlandensas fotografam fadas de verdade" (parece anúncio de pornografia, mas eles mostravam umas fotos cheias de fuligem e umas setas indicando as "fadas"), e por aí vai. Nessa semana enquanto ia almoçar, vi a veterana Revista Planeta exposta nas bancas com uma matéria sobre sustentabilidade (!) na capa. Comprei uma, pra ver sobre o que eles estavam falando e pra matar a saudade dos casos fantásticos trazidos pela revista.  Agora , os textos deles estão vindo numa linha mais  do tipo "Somos cientistas sérios!", com matérias fundamentadas por autoridades científicas e que tratavam de assuntos como a Teoria de Gaia, Paleontologia, Mudanças Climáticas. De uma revista mística ela passou a revista científica, não sei se foi do dia pra noite e não sei qual das duas linhas editoriais é pior!

Reduzido a mais uma atração fantástica, está na matéria de capa da Planeta desse mês, o célebre criador da Teoria de Gaia, um simpático senhor que nós estudantes de Biologia conhecemos muito bem, pois ele é citado num dos livros texto que utilizamos no curso : Ecologia Básica de E. Odum. Estou falando de ninguém mais ninguém menos que James Lovelock.

Apesar de ser uma celebridade no mundo das ciências ambientais, o velhinho é a simpatia em pessoa, contrariando tantas outras autoridades científicas chatas e carrancudas que temos que engolir academia afora. Mas acho que estou passando um pouco o carro na frente dos bois, deixem-me explicar a Teoria e o porquê dela ser criticada pela comunidade científica.

Concebida e aceita em 1979, com a publicação do livro "A TERRA É UM SER VIVO - A hipótese de Gaia", a hipótese de Gaia, basicamente, diz que o planeta, como um todo é um ser vivo.  Há todo um romantismo envolvido com essa hipótese, mas a despeito disso James Lovelock é um médico e biofísico por formação, um homem que concebeu vários aparelhos engenhosos. A hipótese parece ser mais uma "viagem legal" condizente com a Revista Planeta, mas na verdade é algo bem mais sério e complexo do que isso.  Lovelock começou a formular esse teoria 40 anos atrás, quando a NASA o procurou com interesse em utilizar um dos aparelhos criados por ele. Era um aparelho que detectava substâncias a uma concentração muito baixa, por meio do método da cromatografia gasosa. A NASA estava desenvolvendo um programa de pesquisas em Marte e então contratou o Lovelock para adaptar sua invenção à parafernália de exploração espacial da NASA.

Figura que é, logo que chegou na NASA, Lovelock disse para os seus chefes que a idéia que eles estavam tendo era simplesmente ridícula. A galera estava partindo do preceito que as formas de vida marcianas seriam iguais àquelas do deserto da Califórnia! Os biólogos da NASA, que estavam tocando essa idéia estúpida ficaram putíssimos com o Lovelock  e deram com a língua nos dentes: logo o Lovelock foi chamado por seu diretor, que lhe deu a maior bronca e pediu a Lovelock que lhe levasse uma "proposta construtiva".

Apertado pela chefia, James Lovelock passou então três noites em claro, pensando em que solução poderia arranjar para a melhoria da missão de exploração a Marte. Então ele teve uma luz: audaciosamente, defendeu a idéia de que ao desvendarmos a composição química da atmosfera marciana pela análise da luz vinda daquele planeta, poderíamos talvez perceber se essa atmosfera carrega a marca de seres que nela colhem nutrientes e lançam dejetos. A proposta que Lovelock fez a NASA, foi de que eles acoplassem um espectrofotômetro a um telescópio, observassem a atmosfera marciana e colhessem informações a partir dessa observações. As impressões da luz no espectrofotômetro daria pistas da existência ou não de vida naquela atmosfera.
(Explicaldir Neto explica: espectrofotômetro é um aparelho que, basicamente, analisa a incidência de luz sobre determinada amostra. Existem vários modelos, uns cacarecos, outro ultramodernos. O espectrofotômetro mede valores que chamamos de reflectância e/ou absorbância. Tipo assim: dada uma amostra com uma solução qualquer e um raio de luz incidente sobre essa amostra os valores de absorbância detectariam o quanto essa solução absorveu da luz, e os valores de reflectância, que são inversamente proporcionais aos da absorbância, detectariam o quanto de luz restante foi refletido. Vixi. Clareou ou piorou?)

Os caras da NASA ficaram então ainda mais putos e despediram o Lovelock! Um maluco beleza lá de São Thomé das Letras tem uma canção que é assim : "Quebra tudo e chama NASA! Quebra tudo e chama a NASA!" Depois dessa poderia ser Chame todos e quebre a NASA!

Mas voltando à trajetória do Lovelock e à Teoria. O cara foi despedido, mas não desistiu de seus planos e descobertas. A idéia de observar a atmosfera marciana em busca de sinais de vida alienígena, rendeu algumas publicações na revista Nature e foi o ínicio da principal teoria elaborada por esse pesquisador.  Essas publicações na revista Nature traziam resultados de dois anos de observações da atmosfera marciana. Lovelock se baseava na segunda lei da termodinâmica, conhecida por nós estudantes de Ecologia, que é a lei que diz que o universo está sempre orientado em sentido do caos, lei da entropia. Sabendo que tudo no universo se move mesmo é em direção ao caos, Lovelock estranhou as análises da atmosfera marciana onde existia um equilíbrio químico e dominado em 95% pelo dióxido de carbono, uma molécula rara, pois na Terra esses dados se comportavam de maneira muito diferente. "Na nossa atmosfera o dióxido de carbono é raro. Aqui, porém, encontramos oxigênio em abundância, que coexiste com o metano e outras substâncias muito reativas". Lovelock concluiu então que é a vida que renova sem cessar todas as moléculas da atmosfera e afasta a Terra do equilíbrio químico visto em Marte e Vênus. Esses dois planetas, portanto, estão mortos, enquanto a Terra (opa!) está viva!

Esse foi o ponta pé inicial da Teoria. A partir disso, várias analogias começaram a ser feitas, primeiro por Lovelock e depois por outros teóricos. Por exemplo,  a atmosfera terrestre de composição química tão distante do equilíbrio permaneceu notavelmente estável ao longo das eras. Um pouco como o sangue de um ser vivo. Isso se observa também na temperatura (infelizmente, afetada pelos vírus da Terra, os humanos, como eles falavam no filme Matrix): à escala de centenas de milhões de anos, ela exibe uma surpreendente estabilidade. A radiação solar aumentou em um terço, desde o nascimento da Terra, e essa propriedade é comparada à propriedade dos seres vivos de manterem a temperatura interna constante, homeotermia.

E chegamos agora a parte mais interessante (e controversa) da teoria. Lovelock constata que tanto a temperatura quanto a composição química da Terra tendem a valores quase ótimos para a criatura viva - como se o objetivo do sistema fosse favorecer a vida.  De fato, uma atmosfera com duas vezes mais oxigênio causaria incêndios incessantes, enquanto o oxigênio mais rarefeito traria sérias complicações metabólicas aos seres vivos.  Para Lovelock, a Terra é uma espécie em simbiose (uma associação biológica favorável a todas as partes que a compõem) gigante entre todos os seres vivos e o meio mineral, um superorganismo que se conserva no estado mais favorável possível à vida por meio de mecanismos de retroação.

Eu li o último livro do Lovelock, chamado A vingança de Gaia. Nesse livro, ele explica que a Terra é viva sim, está ameaçada e é muito, mas muito mais forte do que nós seres humanos.  Esse livro é um pouco assustador, o Lovelock tá meio terrorista (ou realista?) nele, diz que já não tem mais muita esperança para a espécie humana, que a água vai acabar mesmo... Um dos pontos mais polêmicos desse livro é quando ele fala sobre as fontes de energia que deverão ser utilizadas pelas gerações futuras. Muito controversamente, ele defende a energia nuclear! Apesar de muito perigosa, se for extremamente bem feita, uma usina movida a energia nuclear seria o mais limpo tipo de energia. Eu não me lembro se ele fala sobre páineis solares, ah, lembrei, ele diz que é muito caro (!?). O pessoal da revista perguntou para o Lovelock: " Gaia está em perigo" e a resposta foi: " Gaia precisamente, não!" " Mas se o aumento da temperatura que prevejo, de 6 a 8 graus centígrados, se produzir, a civilização poderá ser ameaçada: termos uma extinção em massa de espécies e a agricultura se tornará impossível em boa parte da superfície do planeta. O alimento será insuficiente, haverá migrações de populações inteiras, conflitos, a humanidade se concentrará ao redor das regiões polares..."

Apocalíptico o negócio.

Numa das analogias que li na Teoria de Gaia, a humanidade é comparada ao sistema nervoso de Gaia. Bom, nisso discordo um pouco. Ou então diria que se é assim, Gaia é uma menina, no mínimo masoquista. Mas enfim....

A Teoria de Gaia é bem aceita na comunidade científica. Mas recebe algumas críticas, como a que eu fiz no início do post, por ser um nome meio "romântico". Segundo Lovelock a Teoria teria sido muito menos criticada se se chamasse apenas Teoria Biogeoquímica.

Mas se fosse assim ela seria um pouco mais chata! Bem, espero sinceramente que o Lovelock esteja errado com suas previsões terroristas e que nós, seres humanos possamos aprender melhor como respeitar mais essa nossa mãe.

FONTE: Revista Planeta, Julho 2010 (com adaptações).


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