sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O QUE É SER NEGRO?


   Reelaborando uma resposta a uma pergunta que me foi feita ontem a noite no bar-sala-de-aula Vagão Leite de Castro, resposta cujo grau etílico em que eu me encontrava não permitiu uma resposta digna no momento. Agora vai aí a resposta:
    Na minha humilde e embasada opinião, negro, é uma etnia (pois já se diferenciaram enquanto populações onde todos indivíduos compartilhavam essa cor de pele e uma certa cultura, ligada às origens africanas) e não é uma raça (esse conceito é construído sócio-historicamente, fundamentado em falsas ideias evolucionistas para se justificar. Em Biologia, a cor da pele é somente uma variação fenotípica, dentro de uma mesma espécie. Absolutamente não há raças humanas diferentes, não há "melhor" ou "pior". Há variações fenotípicas, dando uma pincelada na genética de populações: variação necessária, dentro de uma mesma população para manter a integridade do conjunto genômico da espécie. Em outras palavras: essas variações são necessárias para garantir a perpetuidade e integridade de uma população. Se todas as expressões fenotípicas fossem iguais, um parasita, por exemplo, poderia extinguir a espécie em poucas gerações. Portanto, galera, a pluralidade de expressões fenotípicas - negros, brancos, orientais, miscigenados, etc..- é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie. Assim, agora que sabemos que o conceito de raça é mais histórico/social/ideológico/cultural do que biológico, me arrisco a dizer que ser negro é uma questão de identidade. Uma questão de com o que e com quem e qual cultura você se identifica. Acontece que não sempre que existiu o conhecimento de que negro é só uma variação fenotípica da mesma espécie. No passado, esse grupo social foi violentamente explorado por outro grupo que se achava superior, os brancos.  Os negros foram escravizados, objetificados, vistos sempre como "exóticos", dede a época dos circos medievais que expunham negros como aberrações até o concurso da Globeleza 2014, que reafirma o estereótipo de que o lugar da mulher negra bonita é no máximo sambando semi-nua e papagaiada no carnaval. E não reclama não! Olha que glamour! Não me venha com seu drama, esse tal preconceito não existe! 
     
       Querido Bourdieu e seu conceito de violência simbólica, que mudou radicalmente minha visão de mundo. Os negros, desde a época das navegações, vêm sofrendo a imposição da cultura branca, "melhor", "mais limpa", "mais rica", " mais alva", "mais santa". Negro? Negro é "escuro", "ruim", "bandido", "pobre", "burro", "feio"... De tanto ouvirem essas falsas noções de inferioridade e superioridade, muitos negros acabaram introjetando essas noções preconceituosas e acabam por aceitar o branco como superior e melhor.
      Num país miscigenado e colonizado como o Brasil, essas noções ficam um pouco mais difusas e confusas. Como o negro sofre violência simbólica do branco desde sempre, existe uma grande naturalização do preconceito, uma grande naturalização inconsciente e que parte tanto de negros quanto de brancos dessa ideia de que o branco é melhor e o preto é pior. O "moreno", "mulato", "café-com-leite" brasileiro, sob essa perspectiva, está numa situação fragilizada. Muitos não sabem qual é a sua identidade: sofrem violência simbólica (numa análise bastante otimista, pois boa parte da população negra está é sendo sangrentamente exterminada mesmo) desde a fundação do país, então acabam orientando sua identificação no sentido de uma branquificação. A cantora de funk Anitta é o exemplo clássico dessa identidade negra em conflito e que tende a colocar o branco como superior: a medida que a cantora foi ficando mais famosa, foi mudando seu jeito de se vestir, se maquiar e arrumar o cabelo, ficando cada vez mais semelhante a uma mulher branca. Agora ela é rica e isso só pode ser coisa de branco né gente?? Esse "moreno-claro", que prefere se reconhecer como branco, que tem vergonha de sua origem negra e aceita ser branquificado (o que acontece através de jargões preconceituosos difusos, que a própria pessoa oprimida reproduz, ou que são naturalizados nas piadas e programas de TV, e vão de comentários que pregam uma falsa igualdade como o "vocês não tem que ter privilégios, somos todos iguais...", " você já tem seu lugar, olha o carnaval e o futebol..." " e esse cabelo ruim aí, posso pegar?" até o horripilante "cor de merdinha" que tive que escutar ontem a noite.) sem dúvidas é um sujeito que não tem consciência da violência simbólica histórica que sofre. Sem dúvida em um momento ou outro acaba acreditando nessa falácia de que o branco é melhor. 
      "Sou moreno-claro". Já conheci algumas pessoas que se apresentam assim, quase como se dissessem "não sou tão negro ó, sou quase branco...".  Eu sou meio sem vergonha, pois minha condição genética não permite que eu me aproprie dessa identidade, já que minhas origens são portuguesas e indígenas, mas apesar disso eu transgrido as convenções e bato no peito pra falar: Eu sou negro! Sou negro e não mulato, não cafuso, não moreno-claro e nunca, mas nunca mesmo, cor-de-merdinha.... Mesmo sendo fenotipicamente branco e índio, sou negro por reconhecer o quanto esse grupo social foi oprimido. Por reconhecer o quanto sua riqueza cultural e sua força de trabalho construíram esse país. Sou negro porque nunca fui atendido por um médico negro, nunca vi um advogado negro, vi pouquíssimos professores universitários, poucos colegas universitários, protagonistas de novelas, raríssimos. Sou negro por amargamente perceber que ainda existe muito preconceito, não só nas instituições, mas dentro de casa e nas piadas de roda de bar. Mas cabe exclusivamente a você, companheiro negro, aceitar isso ou não. Se identificar com essa opressão ou não. Ser negro é, portanto, uma questão de identidade.