terça-feira, 19 de março de 2013

Os roteiristas dos X-men estavam certos?

       Os X-men, personagens fictícios da Editora norte-americana Marvel, são um grupo de super-heróis, criados por Stan Lee em 1963 e que geram excelentes debates em Biologia. Esses quadrinhos e/ou filmes e desenhos da franquia, são interessantes para se trabalhar em aulas de Bio porque seus protagonistas são mutantes,  seres geneticamente modificados que desenvolvem poderes. Esse é um dos pontos que podem ser tornados como ferramenta didática da Bio, afinal o que é um mutante? Qual a importância da mutação para a Evolução das Espécies? Por quais mecanismos ela ocorre? Outro ponto bacana da franquia que pode ser trabalhado em sala de aula (aliás é o que sempre alimentou minha paixão, desde criancinha, por esses personagens) é que eles são párias da sociedade. Os personagens são odiados, perseguidos e temidos simplesmente por serem pessoas diferentes. Qualquer semelhança com nossa realidade excludente seria mera coincidência? A partir de qualquer história onde os mutantes são perseguidos, pode-se iniciar um excelente debate sobre a existência ou não de raças e sobre a conceituação de espécies e se essa diferenciação de raças se aplica à espécie humana. Os negros, no passado, assim como os homossexuais (em algumas análises bizarras), foram e são tratados como os mutantes, sendo perseguidos, oprimidos, excluídos, simplesmente por serem diferentes do que foi convencionado  como "normal". 

         Evolução é um tema recorrente na história. Isso pode ser trabalhado em aula, partindo do ponto da mutação e também com algumas histórias especiais da franquia que mostra a Evolução da Espécies (Com alguns erros conceituais, mas que podem ser corrigidos por uma intervenção correta.)(X-men: E de Extinção). Na história, os humanos temem os mutantes, porque o "Homo sapiens superior" é mais forte e supostamente tem potencial para exterminar o Homo sapiens, mas o Professor Charles Xavier, com todo seu arsenal de poderes e princípios morais, sonha em unir as duas espécies e treina algumas pessoas para perpetuarem seu sonho de paz. Mas aí surge o Magneto, arquiinimigo dos X-men e um vilão que é um excelente contraponto que fomenta a discussão. Mutante e traumatizado pelo holocausto nazista, Magneto quer mais é que o Homo sapiens deixe de existir, porque segundo ele os superiores devem reinar. Assim, ele treina sua Irmandade de Mutantes, para guerrearem contra a humanidade, sob o pretexto de que os mutantes são o próximo estágio da humanidade e que deverão exterminar o Homo sapiens assim como o Homo sapiens exterminou o Homo neanderthalis.
         Opa, mas para tudo agora!
         Pause.
         Tempo pra reflexão...
         O Homo sapiens realmente exterminou o H. neandertalensis?
       Fui buscar uma resposta para essa pergunta e encontrei um universo de informações, que vou tentar resumir. 
         Bem, primeiramente, posso dizer que a ideia antiga, inclusive difundida pelo Magneto, de que a Evolução Humana, ou das Espécies, foi um processo linear, onde existe um organismo inferior e um superior, bem, isso caiu por terra. Não há uma linha reta, onde uma espécie sucede a outra. Há, na verdade uma árvore, com vários grupos se interrelacionando e as espécies nas pontas. Alguns autores dizem que a Evolução Humana teve tantas descobertas nas últimas décadas que é mais uma moita do que uma árvore. O que existia, há cerca de 3 milhões de anos, quando surgiu o primeiro H. sapiens era uma uma gaaaalera (uma diversidade com aproximadas 20 espécies)  de hominídeos, alguns convivendo entre si, outros ocupando diferentes hábitats. Existiram várias espécies hominídeas que conviveram entre si e o ancestral direto do H.sapiens é incerta, sabe-se apenas que é alguma espécie aparentada com os australopithecus, gênero de nossa querida Lucy (A.afarensis). Muitos hominídeos se extinguiram por causas naturais: isolamentos geográficos, geleiras ou desgelo abrupto, aquecimentos globais ou escassez de alimentos. Mas, sim, H. sapiens e H.neandhertalis se encontraram em algum momento da história evolutiva da humanidade e esse encontro se deu lá na Palestina, segundo Walter Neves, antropólogo da USP. "Esse furdúncio que existe hoje na Palestina, já existia há 100 mil anos."
          Costumam (como fruto de um pensamento antropocêntrico que perdura até hoje) uma tendência a dizer que a inteligência surge em H. sapiens, mas nessa época dos primórdios, quando as duas espécies conviveram, o arsenal tecnólogico das duas espécies era exatamente o mesmo. Suas ferramentas eram praticamente idênticas e cada espécie demarcava um território: H.sapiens na Asia e H.neandhertalis na África. E ai de quem pisasse no território do outro!
            Mas foi então, que a 50 mil anos, o H.sapiens passou por uma mutação e teve um "clique" no cérebro que passou a permitir que ele imaginasse um mundo além do mundo real. É aí que surgem as representações simbólicas (a realidade não era mais apenas o que é imediatamente concreto e palpável, ela podia ser representada, o campo podia ser representado em uma caverna), e dá-se o nascimento da linguagem! (Putz, fator que favoreceu a extinção da outra espécie.)
               O H.sapiens então percebe que seu arsenal tecnógico também podia se expandir em suas formas e representações e assim começa a desenvolver a cultura, com utensílios utilitários, novas lanças, novas armas... A arte só surge 40 mil anos atrás, com esse estalar do H. sapiens primitivo. 
               Se por um lado alguns pesquisadores acreditam que houve uma mutação no cérebro humano que permitiu as inovações tecnológicas da idade da pedra, por outro, existem cientistas que não acreditam nessa teoria. Acreditam que sempre existiu um potencial para a cultura na espécie e que esse potencial é despertado quando a situação aperta, nesse caso, com mudanças climáticas graves que forçaram o homem a mudar de vida. 
              Agora, com arsenal renovado e depois de terem conquistado novas partes do mundo, como o Sudeste Asiático e a Austrália, o H.sapiens estava pronto para enfrentar o H. neandhertalis que reinava no norte da Europa. 
                  O H. sapiens de fato foi dominando território, desenvolvendo armas mais eficientes, e aos poucos foram substituindo os H. neandhertalis.  Mas há muita controvérsia quando pesquisamos sobre o assunto. Alguns pesquisadores dizem que havia muita semelhança entre as duas espécies, que chegaram a trocar hábitos culturais (como o artesanato) e a transarem uma espécie com a outra! Os neandertais eram mais adaptados ao frio, tinham ossos mais fortes e transpiravam menos, mas os sapiens tinham armas melhores, eram mais eficientes na hora de caçar. Nunca encontraram sinais de um conflito direto, nenhum fóssil de neandertal com alguma fratura com marcas de armas dos sapiens. Isso nunca encontraram. Mas pela inteligencia ao utilizar ferramentas para sobreviver a população Sapiens foi se instalando, tomando espaço e gradativamente substituindo a outra. Pelo que entendi foi a competição inter-específica que fez com que uma espécie substituisse e eliminasse a outra. Mas não era uma competição como entedemos hoje nesse nosso mundo, com armas, guerras, genocídios... Foi simplesmente uma melhor adaptabilidade de uma espécie enquanto a natureza se ocupou em eliminar a outra.
                  Conclusão: Magneto estava errado! 
                  Portanto crianças, sigam o sonho do Professor Xavier.



ABAIXO UM POUCO DA ARTE DOS PRIMEIROS H. sapiens.
(São felinos lindos.)





Fontes: Artigos das revistas Superinteressante e Scientific American e sites diversos.









sexta-feira, 15 de março de 2013

Da série Círculo do Bakhtin: Capítulo I Maria Yudina

Bem, estou fazendo alguns estudos pro Mestrado em Educação. Com as leituras, algumas práticas e troca de ideias com amigos e colegas estou definindo o que quero pesquisar e como vou fazer isso. Quero pesquisar metodologias alternativas que busquem sanar as falhas referentes à linguagem no Ensino de Biologia. No Ensino de Biologia temos alguns problemas que são referentes à linguagem. Em aula são dados muitos termos técnicos de uma só vez e isso dificulta a assimilação do estudante. São muitas palavras novas e estranhas pra se decorar, então pra pesquisar e executar propostas que visem sanar essa deficiência do ensino de Bio, estou estudando a fundo a Teoria do Dialogismo, e sendo assim eu não teria outra escapatória a não ser estudar o pais do Dialogismo: Mikhail Bakhtin. Bakhtin foi um filólogo e historiador que viveu na Rússia nos anos 20 e desenvolveu uma teoria ampla e complexa sobre dialogismo e filosofia da linguagem. Bakhtin e sua teoria do dialogismo eram notáveis, e a teoria sobre dialogismo foi construída exatamente sobre bases dialógicas, dentro de um grupo de intelectuais do começo do século passado que ficou conhecido como Círculo de Bakhtin.
  Em homenagem às mulheres, para a primeira pesquisa bibliográfica sobre os membros do círculo traduzi um texto muito bacana que encontrei sobre uma notória pianista que fez parte do primeiro círculo de Bakhtin: Maria Yudina. Enjoy it!


"A escada da Beatitude" de Jim Forest.

Uma das pessoas dos tempos modernos cujo coração era radiantemente puro foi a pianista russa Maria Yudina. Vim a conhecê-la indiretamente através das memórias de seu amigo e ex-colega de classe, o compositor Dimitri Shostakovich, e também através de Tatiana Voogd, uma membro de nossa paróquia que conheceu Yudina pessoalmente, e dormia sob o piano dela - "o lugar mais protegido no apartamento dela", ela me disse.
      Foi o destino de Maria Yudina viver na Revolução Russa e durante o seu resultado, vendo muitos de seus amigos e colegas mais queridos desaparecerem no Gulag. (Uma agencia governamental russa que administrava os trabalhos de campo forçado que os "subversivos" tinham que fazer durante o governo Stalin) Uma cristã destemida, ela carregava uma cruz bem visível, mesmo quando estava ensinando ou se apresentando em público - uma afirmação de crença em um tempo onde a exibição de fé religiosa poderia custar o trabalho de alguém, sua liberdade ou mesmo sua vida. Ela viveu uma vida ascética, sem utilizar cosméticos, gastando pouco com ela mesma e se vestindo simplesmente. "Eu tinha a impressão que Yudina vestia o mesmo vestido preto durante toda sua longa vida, era tão usado e sujo", dizia Shostakovich.

Para Maria Yudina, a música era uma forma de proclamar sua fé em um período onde publicações eram mais cuidadosamente policiadas do que pianos. "Yudina via a música com uma luz mística. Por exemplo, ela via as Goldberg Variations de Bach como uma série de ilustrações da Bíblia Sagrada." disse Shostakovich. " Ela sempre tocava como se estivesse dando um sermão"

Ela não somente performava com o piano, mas parava durante os concerto para ler a poesia de escritores como Boris Pasternak, que não podia ser publicado naquele tempo.

Ela era notória dentre os amigos por sua inabilidade de manter qualquer coisa de valor somente para ela mesma. "Ela veio me ver uma vez" Shotakovich lembrou, " e disse que estava vivendo em um quarto miserável, onde ela não podia nem trabalhar nem dormir. Então assinei uma petição, fui ver vários burocratas, pedi ajuda a uma porção de pessoas, tomei o tempo de algumas pessoas. Com muita dificuldade conseguimos um apartamento para Yudina. Você pensaria que tudo estava bem e que a vida podia assim continuar. Um curto tempo depois ela chegou em mim de novo e pediu ajuda para obter um apartamento para ela. O que? Mas nós conseguimos um apartamento para você! Por que você precisa de outro? " Eu dei o apartamento para uma mulher velha e pobre."!
Shostakovich ouviu falar que amigos tinham feito um empréstimo a Yudina de cinco rublos. " Eu quebrei uma janela no meu quarto, está tão frio, não posso viver assim" ela os tinha dito. "Naturalmente eles deram o dinheiro a ela - era inverno. Pouco tempo depois eles foram visitá-la, e estava tão frio no quarto dela quanto estava fora da casa e a janela quebrada estava remendada com trapos. "Como pode isso, Maria Veniaminovna? Demos dinheiro pra você consertar a janela." E ela respondeu. "Dei o dinheiro para cobrir as necessidades da igreja."
Shostakovich, que acreditava que religião era superstição, não aprovou. "A igreja deve ter sérias necessidades," ele protestou" mas o clero não se senta no frio, depois de tudo, com janelas quebradas. Auto negação deveria ser um limite racional." Ele a acusou de se comportar como uma yurodivye, a palavra russa para um tolo santo, uma forma de santidade aos olhos da igreja.
Sua declaração pública de fé teve um custo. Apesar de seu gênio como uma música, de tempos em tempos ela era banida de casas de concertos e mais de uma vez na vida dela, ela foi permitida de viajar para fora da Rússia. Shostakovich lembra:
As posições religiosas dela estavam sob constante ataque da artilharia e até da cavalaria (na música Escola em Leningrado). Serebriakov, o diretor na época, tinha o hábito de fazer a então chamada  "incursão das brigadas de luz". Ele percebeu que Yudina era uma aluna de piano brilhante, mas ele não queria arriscar sua própria posição. Um dos desafios da brigaga de luz foi feito especificamente contra ela. A cavalaria se apressou e foi até a classe de Yudina e quis saber dela: "Você acredita em Deus?" Ela respondeu afirmativamente. "Ela estava promovendo propaganda religiosa dentre seus alunos?" Ela respondeu que a Constituição não proibia isso. Alguns dias depois uma transcrição da conversa feita por uma "pessoa desconhecida" apareceu, em um papel da Leningrado, que também trazia uma caricatura - Yudina em um hábito de freira, cercada de estudantes ajoelhados. E a legenda era algo sobre pregadores aparecendo no Conservatório. A cavalaria trilhou pesadamente, no entanto era a brigada de luz. Naturalmente, Yudina foi demitida depois disso.

De tempos em tempos, ela praticamente assinava sua sentença de morte. Talvez a história mais marcante na memória de Shostakovich seja a respeito de tal incidente:

   Em seus anos finais, Stalin parecia mais e mais como um louco, e acho que suas superstições cresceram.
O "Líder e Professor" sentava trancado em um de seus muitos aposentos, e se divertia de maneiras bizarras. Dizem que ele cortava imagens e fotos de revistas velhas e jornais, os colava em papeis, e os pendurava nas paredes. [Ele] não deixava ninguém entrar para vê-lo durante dias. Ele escutava muita rádio. Uma vez Stalin ligou para o Comite de Rádio e perguntou se eles tinham uma gravação do Concerto de Piano de Mozart n. 23, que tinha sido escutado na rádio no dia anterior. "Tocado por Yudina", ele acrescentou. Eles disseram a Stalin que claro que tinham. Na verdade, não havia gravação, pois o concerto tinha sido ao vivo. Mas eles tinham medo de dizer não a Stalin, ninguém nunca sabia que consequencias isso podia ter. Uma vida humana não significava nada para ele. Tudo o que você podia fazer era concordar, se submeter, ser um homem do sim, um homem do sim para um louco.
Stalin pediu que eles enviassem a gravação com a performance de Yudina para seu aposento. O Comite entrou em pânico, mas eles tinham que fazer alguma coisa. Eles chamaram Yudina e uma orquestra e gravaram na mesma noite. Todos estavam tremendo de pavor, menos Yudina, naturalmente. Mas ela era um caso especial, para ela, o oceano batia apenas nos joelhos.
Yudina me contou depois que eles deviam mandar o maestro para casa, ele estava tão apavorado que não podia pensar. Chamaram outro maestro, que tremia e deixava tudo misturado, confundindo a orquestra. Somente um terceiro maestro estava em forma para terminar a gravação.
Acho que esse foi um evento único na história da gravação - digo, mudar maestros três vezes em uma única noite. De qualquer forma, a gravação ficou pronta pela manhã. Fizeram uma única cópia em tempo recorde e mandaram para Stalin. Agora havia uma gravação.
Pouco depois, Yudina recebeu um envelope com duzentos rublos. Disseram a ela que vinha de ordens expressas de Stalin. Então ela escreveu uma carta para ele. Eu conheço essa carta dela, e sei que a história parece improvável. Yudina tinha muitas peculiaridades, mas posso dizer isso - ela nunca mentiu. Tenho certeza de que a história dela é verdadeira. Yudina escreveu algo assim em sua carta: " Te agradeço, Joseph Vissarionovich, por sua ajuda. Vou rezar por você dia e noite e pedir para o Senhor que perdoe seus imensos pecados diante do povo e do país. O Senhor é piedoso e Ele irá te perdoar.Dei o dinheiro para a igreja que assisto."

E Yudina enviou essa carta suicída a Stalin. Ele leu e não disse uma palavra, eles esperavam pelo menos uma contração de sombrancelha. Naturalmente, a ordem de prisão de Yudina foi preparada e o menor sinal de careta teria sido suficiente para sumir com os últimos traços dela. Mas Stalin estava em silêncio e deixou a carta de lado em silêncio. O movimento antecipado da sombrancelha não aconteceu.

Nada aconteceu a Yudina. Dizem que sua gravação de Mozart estava no tocador de música quando o "Líder e Professor" foi encontrado morto em seus aposentos. Foi a última coisa que ele escutou.

Shotakovich achava a exibição aberta de fé de Yudina uma bobgem, no entanto percebe-se em suas reclamações tanto inveja quanto temor. Em um tempo de medo de parar o coração, aqui estava alguém tão destemida quando São Jorge diante do dragão, alguém que preferia dar seus poucos rublos para reparar sua própria janela quebrado, que "publicava" com sua própria voz os poemas de escritores banidos, que se atraveu a dizer a Stalin que ele não estava além da piedade e perdão de Deus. Ela tinha um coração grande e puro. Não é de se espantar que o túmulo dela em Moscou seja um lugar de peregrinação desde a morte dela.