Eu mirmecocorizo, tu mirmecocoriza, Elas mirmecocorizam...


Eu não, mas as formigas sim.

Mirmecocoria é o nome dado para um processo de dispersão de sementes feito por formigas. A dispersão de sementes é um fenômeno (principalmente a dispersão feita por formigas ou mirmecocoria) ainda pouco compreendido dentro da Ecologia. Dispersão significa levar a semente para um outro lugar, mais distante da planta mãe, (que gera sombra e muitas vezes atrapalha o crescimento da espécie vegetal) um lugar mais seguro com mais disponibilidade de luz e água, longe de predadores (geralmente pequenos roedores e besouros, que adoram comer sementes novinhas).

A transmissão de genes ao longo de gerações (seja em plantas ou em animais) é um 'fenômeno-chave" dentro da história da vida. Alguns autores consideram inclusive que esse é o objetivo-mor, a razão principal da vida: a transmissão de genes. Existe até uma definição de espécie (que não me agrada nem um pouco) que diz que as espécies são um "reservatório genético intermediário"... Acho que a vida é um pouco mais do que isso, mas enfim, o fato é que muito do que se observa na natureza, muitos processos adaptativos e muitos tipos de comportamentos observados nas espécies animais e vegetais são explicados como uma forma, digamos, de "garantir o lugar" daquela espécie no planeta. Tudo é em função da transmissão desse "patrimônio genético" para frente, pro futuro!

O estudo da dispersão é importante porque é uma estratégia evolutiva das plantas, ou seja é dessa forma, através da dispersão, que elas conseguem "marcar seu território" e deixar seu patrimônio genético sobreviver ao longo dos diferentes lugares e épocas. O Richard Dawkins diz que não tem nada de fenomenal nisso são apenas mecanismos de coadaptação, mas não estou nem aí pra ele, acho bonito e fenomenal pra caramba! Ao longo do tempo, as espécies foram se transformando e ganhando adaptações para atrair esses dispersores. Existem vários tipos de dispersores: pássaros, insetos, a água, o vento, mas vou focar aqui apenas nas formigas.

A estratégia evolutiva das plantas para atrair formiguinhas que carregassem suas sementes, foi o desenvolvimento de uma espécie de bônus para aquelas formigas que levassem as sementes. Esse bônus é chamado também de arilo ou elaiossomo, uma proteção lipídica (ou gordurosa) ao redor das sementes. O mecanismo funciona de forma mutualística, ou seja, como uma troca: A planta é dispersada e tem sua sobrevivência garantida e as formigas ganham um alimento extra, a camada protetora lipídica, que serve para alimentar as larvas.

Essa justa troca parece ter dado certo no jogo da Evolução. Estima-se que 11.000 espécies vegetais utilizam dessa estratégia para dispersar suas sementes! Esse número representa 4.5 % de todas as espécies vegetais, distribuídos em 334 gêneros, em 77 famílias diferentes! É planta pra caramba, sobrevivendo com apoio das formigas! Membros de algumas famílias botânicas populares, como asteráceas, bromeliáceas e euforbiáceas (ex.mamona), utilizam a estratégia evolutiva da Síndrome de dispersão mirmecocórica.

Dentre as espécies de formigas que realizam essa tarefa podemos citar ( A identificação não está muito precisa, porque os artigos geralmente expõem só os gêneros que realizam a síndrome e não a espécie específica, e isso confunde um pouco):

Formica rufa, ou formiga saúva;


Acromyrmex subterraneus subterraneus, uma pequenininha clara, com 4 espinhos dorsais da família Formicidae. Conhecida como quenquén.
Atta sexdens rubropilosa, Essa tem 3 espinhos dorsais, e é um tipo de formiga cortadeira. Adora uma folha de laranjeira e é conhecida também como saúva.

Ectatomma edentatum - É uma pretinha comprida, bastante comum da família Formicidae.

Pachycondyla sp. - Parece nome de sultão, Paquistão, sei lá, mas trata-se na verdade de um indivíduo da subfamília Poneriine, feinha pra caramba.

Pheidole sp. - Pertencem à família Formicidae

Camponotus rufipes - Essa é uma formiga ruiva e noturna que gosta de atacar colméias e realiza síndrome de dispersão mirmecocórica!


Dentre outras espécies.
Escrevi um projetinho de iniciação científica sobre essa síndrome de dispersão. Meu trabalho agora é identificar, conhecer a fundo as espécies vegetais e de formigas que realizam esse trabalho. Além disso preciso comprovar uma hipótese que os teóricos chamam de “Hipótese da Fuga do Predador”. Essa hipótese diz, em suma, que o fato das formigas dispersarem as sementes de alguns vegetais, é uma estratégia certeira de fuga e proteção contra os predadores naturais dessas sementes (besouros e roedores). Parece que ninguém conseguiu medir alguns dados (como taxas de remoção das sementes, por exemplo) que comprovem que a mirmecocoria faz realmente diferença na proteção das sementes contra os predadores.

Para testar a veracidade dessa hipótese, imaginei a demarcação de dois transectos (em ecologia é uma área previamente determinada, as vezes imaginária), com espécies vegetais com síndrome de dispersão mirmecocórica. Em uma das áreas haveria “livre acesso” às formigas e na outra eu teria que dar um jeito de isolar as plantas das formigas. A utilização de iscas (venenos) é recomendada para esse tipo de experimento, mas não sei até que ponto é confiável e até que ponto não é muito impactante! Seria preciso também contar e demarcar as sementes das duas áreas. Então depois de algum tempo eu teria que contar tudo de novo, observando qual foi a diferença entre o ambiente com formigas e o sem formigas. Quais seriam as taxas de remoção observadas nas duas áreas? E de germinação? As sementes ficariam intactas na ausência de formigas ou seriam facilmente devoradas pelos predadores? A ausência das formigas daria espaço para os besouros e roedores fazerem a “Festa das sementes gostosas?”

São questões que preciso responder. Tenho buscado pelo menos observar as espécies que utilizam essa síndrome como estratégia de dispersão, mas o que dificulta é que não tenho tido muita convivência com qualquer uma dessas espécies e uma observação desse tipo demanda um certo tempo e dedicação. Mas enfim, aos poucos vou fazendo, uma hora chego às minhas conclusões!

Valeu formigas!@

ADENDO: Galera, minha pesquisa na Universidade é sobre esse assunto, e eu acabo de saber que tirei 9,0 na segunda etapa do processo de iniciação científica! Um peso a menos. Empolgado com a novidade, fui buscar mais coisas recentes sobre mirmecocoria e até encontrei um início de resposta pra minha pergunta sobre se as formigas são realmente eficientes na defesa contra predadores de sementes.

Elas são. Surpreendentemente, os cientistas observaram que a maioria das sementes que são dispersadas por formigas, após terem seus elaiossomos ( a camadinha lipídica que a formiga fatura) removidos, as formigas, olha que show! instintivamente levam o resto dessa semente para um lugar onde exista um solo fértil, de uma maneira que a semente tenha sua germinação facilitada e garantida!

Essa natureza é muito perfeita meu Deus!

FONTE: Szabolcs Lengyel (et al) CONVERGENT EVOLUTION OF SEED DISPERSION BY ANTS, AND PHYLOGENY AND BIOGEOGRAPHY IN FLOWERING PLANTS: A GLOBAL SURVEY;
Ethel Fernandes de Oliveira Peternelli2 ESPÉCIES DE FORMIGAS QUE INTERAGEM  COM AS SEMENTES DE Mabea fistulifera Mart. (EUPHORBIACEAE)

Comentários

  1. Vamos todos Mirmecocorizar!!!!! Neto eu não sabia disso, achava que só os pássaros faziam isso de levar sementes e tal.....bem legal!!!
    Devemos aprender com as formiguinhas!!!!!!
    Bjinhos!!!!!

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  2. Pois é Dani!
    Tudo que eu quero agora é mirmecocorizar! (se é que isso é possível).

    Eu acho fascinante o universo das formigas, temos muito mesmo o que aprender com elas, já que elas são seres verdadeiramente sociais!

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