quarta-feira, 14 de julho de 2010

Eu mirmecocorizo, tu mirmecocoriza, Elas mirmecocorizam...


Eu não, mas as formigas sim.

Mirmecocoria é o nome dado para um processo de dispersão de sementes feito por formigas. A dispersão de sementes é um fenômeno (principalmente a dispersão feita por formigas ou mirmecocoria) ainda pouco compreendido dentro da Ecologia. Dispersão significa levar a semente para um outro lugar, mais distante da planta mãe, (que gera sombra e muitas vezes atrapalha o crescimento da espécie vegetal) um lugar mais seguro com mais disponibilidade de luz e água, longe de predadores (geralmente pequenos roedores e besouros, que adoram comer sementes novinhas).

A transmissão de genes ao longo de gerações (seja em plantas ou em animais) é um 'fenômeno-chave" dentro da história da vida. Alguns autores consideram inclusive que esse é o objetivo-mor, a razão principal da vida: a transmissão de genes. Existe até uma definição de espécie (que não me agrada nem um pouco) que diz que as espécies são um "reservatório genético intermediário"... Acho que a vida é um pouco mais do que isso, mas enfim, o fato é que muito do que se observa na natureza, muitos processos adaptativos e muitos tipos de comportamentos observados nas espécies animais e vegetais são explicados como uma forma, digamos, de "garantir o lugar" daquela espécie no planeta. Tudo é em função da transmissão desse "patrimônio genético" para frente, pro futuro!

O estudo da dispersão é importante porque é uma estratégia evolutiva das plantas, ou seja é dessa forma, através da dispersão, que elas conseguem "marcar seu território" e deixar seu patrimônio genético sobreviver ao longo dos diferentes lugares e épocas. O Richard Dawkins diz que não tem nada de fenomenal nisso são apenas mecanismos de coadaptação, mas não estou nem aí pra ele, acho bonito e fenomenal pra caramba! Ao longo do tempo, as espécies foram se transformando e ganhando adaptações para atrair esses dispersores. Existem vários tipos de dispersores: pássaros, insetos, a água, o vento, mas vou focar aqui apenas nas formigas.

A estratégia evolutiva das plantas para atrair formiguinhas que carregassem suas sementes, foi o desenvolvimento de uma espécie de bônus para aquelas formigas que levassem as sementes. Esse bônus é chamado também de arilo ou elaiossomo, uma proteção lipídica (ou gordurosa) ao redor das sementes. O mecanismo funciona de forma mutualística, ou seja, como uma troca: A planta é dispersada e tem sua sobrevivência garantida e as formigas ganham um alimento extra, a camada protetora lipídica, que serve para alimentar as larvas.

Essa justa troca parece ter dado certo no jogo da Evolução. Estima-se que 11.000 espécies vegetais utilizam dessa estratégia para dispersar suas sementes! Esse número representa 4.5 % de todas as espécies vegetais, distribuídos em 334 gêneros, em 77 famílias diferentes! É planta pra caramba, sobrevivendo com apoio das formigas! Membros de algumas famílias botânicas populares, como asteráceas, bromeliáceas e euforbiáceas (ex.mamona), utilizam a estratégia evolutiva da Síndrome de dispersão mirmecocórica.

Dentre as espécies de formigas que realizam essa tarefa podemos citar ( A identificação não está muito precisa, porque os artigos geralmente expõem só os gêneros que realizam a síndrome e não a espécie específica, e isso confunde um pouco):

Formica rufa, ou formiga saúva;


Acromyrmex subterraneus subterraneus, uma pequenininha clara, com 4 espinhos dorsais da família Formicidae. Conhecida como quenquén.
Atta sexdens rubropilosa, Essa tem 3 espinhos dorsais, e é um tipo de formiga cortadeira. Adora uma folha de laranjeira e é conhecida também como saúva.

Ectatomma edentatum - É uma pretinha comprida, bastante comum da família Formicidae.

Pachycondyla sp. - Parece nome de sultão, Paquistão, sei lá, mas trata-se na verdade de um indivíduo da subfamília Poneriine, feinha pra caramba.

Pheidole sp. - Pertencem à família Formicidae

Camponotus rufipes - Essa é uma formiga ruiva e noturna que gosta de atacar colméias e realiza síndrome de dispersão mirmecocórica!


Dentre outras espécies.
Escrevi um projetinho de iniciação científica sobre essa síndrome de dispersão. Meu trabalho agora é identificar, conhecer a fundo as espécies vegetais e de formigas que realizam esse trabalho. Além disso preciso comprovar uma hipótese que os teóricos chamam de “Hipótese da Fuga do Predador”. Essa hipótese diz, em suma, que o fato das formigas dispersarem as sementes de alguns vegetais, é uma estratégia certeira de fuga e proteção contra os predadores naturais dessas sementes (besouros e roedores). Parece que ninguém conseguiu medir alguns dados (como taxas de remoção das sementes, por exemplo) que comprovem que a mirmecocoria faz realmente diferença na proteção das sementes contra os predadores.

Para testar a veracidade dessa hipótese, imaginei a demarcação de dois transectos (em ecologia é uma área previamente determinada, as vezes imaginária), com espécies vegetais com síndrome de dispersão mirmecocórica. Em uma das áreas haveria “livre acesso” às formigas e na outra eu teria que dar um jeito de isolar as plantas das formigas. A utilização de iscas (venenos) é recomendada para esse tipo de experimento, mas não sei até que ponto é confiável e até que ponto não é muito impactante! Seria preciso também contar e demarcar as sementes das duas áreas. Então depois de algum tempo eu teria que contar tudo de novo, observando qual foi a diferença entre o ambiente com formigas e o sem formigas. Quais seriam as taxas de remoção observadas nas duas áreas? E de germinação? As sementes ficariam intactas na ausência de formigas ou seriam facilmente devoradas pelos predadores? A ausência das formigas daria espaço para os besouros e roedores fazerem a “Festa das sementes gostosas?”

São questões que preciso responder. Tenho buscado pelo menos observar as espécies que utilizam essa síndrome como estratégia de dispersão, mas o que dificulta é que não tenho tido muita convivência com qualquer uma dessas espécies e uma observação desse tipo demanda um certo tempo e dedicação. Mas enfim, aos poucos vou fazendo, uma hora chego às minhas conclusões!

Valeu formigas!@

ADENDO: Galera, minha pesquisa na Universidade é sobre esse assunto, e eu acabo de saber que tirei 9,0 na segunda etapa do processo de iniciação científica! Um peso a menos. Empolgado com a novidade, fui buscar mais coisas recentes sobre mirmecocoria e até encontrei um início de resposta pra minha pergunta sobre se as formigas são realmente eficientes na defesa contra predadores de sementes.

Elas são. Surpreendentemente, os cientistas observaram que a maioria das sementes que são dispersadas por formigas, após terem seus elaiossomos ( a camadinha lipídica que a formiga fatura) removidos, as formigas, olha que show! instintivamente levam o resto dessa semente para um lugar onde exista um solo fértil, de uma maneira que a semente tenha sua germinação facilitada e garantida!

Essa natureza é muito perfeita meu Deus!

FONTE: Szabolcs Lengyel (et al) CONVERGENT EVOLUTION OF SEED DISPERSION BY ANTS, AND PHYLOGENY AND BIOGEOGRAPHY IN FLOWERING PLANTS: A GLOBAL SURVEY;
Ethel Fernandes de Oliveira Peternelli2 ESPÉCIES DE FORMIGAS QUE INTERAGEM  COM AS SEMENTES DE Mabea fistulifera Mart. (EUPHORBIACEAE)

2 comentários:

  1. Vamos todos Mirmecocorizar!!!!! Neto eu não sabia disso, achava que só os pássaros faziam isso de levar sementes e tal.....bem legal!!!
    Devemos aprender com as formiguinhas!!!!!!
    Bjinhos!!!!!

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  2. Pois é Dani!
    Tudo que eu quero agora é mirmecocorizar! (se é que isso é possível).

    Eu acho fascinante o universo das formigas, temos muito mesmo o que aprender com elas, já que elas são seres verdadeiramente sociais!

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