segunda-feira, 9 de junho de 2014

Corpo sem órgãos

Talvez eu queira estourar meus pulmões de tanto fumar. Derreter o fígado de tanto beber. Arrebentar a laringe de tanto gritar. Abarrotar o estômago de tanto comer, estraçalhar o coração de tanto quebrar, entortar a coluna de tanto andar, lotar o cérebro de muito estudar, os olhos se gastarem de tudo querer ver, os dedos se cortarem de tudo querer fazer. Estou e sempre estive mesmo sem saber que estava, em busca do Corpo sem Òrgãos. Artaud pensou nessa ideia em 1947 quando resolveu se opor aos órgãos, pois esses traziam peso, confusão e ao se integrarem a um organismo passam a ser instrumentos controláveis. Baseado nessas ideias, Gilles Deleuze e Felix Guatari desenvolveram o conceito de Corpo sem Òrgãos (CsO) em suas obras O anti-édipo e Mil Platôs (Vol. 3 Como criar para si um corpo sem órgãos). 

O Corpo sem Òrgãos está na imanência do desejo, é potência criadora. Ele não é um espirito, não está pronto e ao mesmo tempo é pré-pronto. É o que se preenche por intensidades e materializa os afetos. Os órgãos, estratos organizados servem a ordem, carregam acontecimentos passados, falham. Ao se organizarem em um organismo, sujeitam-se ao controle externo, ao grande Fora. 

O masoquista, o hipocondríaco, o drogado, o paranóico, o esquizofrênico rasgam, alucinam, amedrontam, dividem, costuram, testam, fecham, enfim experimentam o corpo até seus limites. Extravassam o corpo ou a mente através de ondas doloríferas, ou ondas de frio ou medo, ou uma torrente de ideias. Seja o que for, o que importa é atingir o campo de intensidades. Apreender o acontecimento, experimentar o devir. 

Sugere-se apenas prudência, injeções de prudência. Afinal de contas, o Corpo sem Órgãos não se opõe aos órgãos (pois são quem possibilitam a experimentação), mas se opõe ao organismo, à sujeição. O CsO sugere estar nos acontecimentos, fazer uso ético e estético do que nos acontece. É a casa da nossa potência, a casa do nosso desejo. Não é um corpo de matéria organizada e extensa, esse corpo organizado é efeito do CsO. O CsO é um ovo, uma zona de intensidades.

Mas o lance é se preencher de intensidades e só se faz isso através dos órgãos, são eles que experimentam, por isso, mantê-los sãos. São puro devir.




segunda-feira, 14 de abril de 2014

Círculo do Bakhtin: Capítulo II O biólogo Kanaev e Bakhtin

               
           O campo da Biologia ocupava uma posição de certa proeminência na União Soviética durante os anos 20. A relação entre a teoria da Evolução e o Marxismo eram intensamente debatidas e questões biológicas pairavam amplamente entre os marxistas e demais partidos russos. De acordo com Zhores Medmedev, o período entre 1922 e 1928 constitui os "anos de ouro" da ciência russa. Sob a nova política econômica de Lenin, houve um acréscimo significativo nos fundos disponíveis para pesquisa científica e educação, e uma explosão semelhante nas publicações científicas. No final dos anos 20 os primeiros expurgos contra cientistas começaria e a ciência entrava em um período de crise crescente. Com a ascensão do Lysencoismo, os anos 30 veriam uma aceleração dessas medidas, além do contato cortado entre a ciência soviética e suas contrapartes estrangeiras. Mas no começo dos anos 20 os cientistas soviéticos eram conhecidos por estarem na ponta de áreas como pesquisa genética. 
             Kanaev foi um biólogo e membro do novo círculo de Bakhtin, agora em Leningrado.

O próprio trabalho de Kanaev era inicialmente sobre genética, história da ciência e a biologia da hidra. Como estudante da Universidade de São Petersburgo, ele estudou genética com Iiuri Filipchenko. Junto com Nicolai Vavilov, Nicolai Kol stoi, Filipchenko e Chetiverikov, era nos anos 20 um dos principais pesquisadores em genética na União Soviética.
           Bakhtin e Kanaev se tornam amigos quando Bakhtin se muda para Leningrado, cidade em que Kanaev trabalhava como cientista. Eles frequentavam os mesmos círculos intelectuais e por três anos Bakhtin alugou uma casa do senhor Kanaev, que permaneceu se correspondendo com Bakhtin durante os anos de seu exílio e morte.
              Kanaev publicou um artigo com a teoria do vitalismo, que viria a influenciar a obra de Bakhtin. A teoria na verdade é inteiramente escrita por Bakhtin (Holquist). O vitalismo é uma ideia que remonta à Grécia antiga, mas voltou a ser difundida no século XIX. Basicamente é uma ideia que diz que todo ser vivo é animado por uma força intrínseca, essencial. Bakhtin já achava estranhas essas noções e pensava que os fenômenos do organismo poderiam ser reduzidos à reações químicas e à física. Vitalistas como Driesch pensavam que a vida surgia de forma abiogênica, e Driesch tentava utilizar o celenterado Hydra (que tem capacidade de se reconstituir e Driesch acreditava que era por ter uma força vital extra corpórea), enquanto o Bakhtin com seus charutos e seu olhar mais contido pensava com proximidade do que é pensado pela ciência hoje : para ele a hidra tem uma incrível capacidade de auto-regulação. Bakhtin achava o pensamento de Driesch ingenuo, pois explicava o crescimento e funcionamento dos organismos como se fossem máquinas movidas por essa força imaterial. Esse ponto de vista não pode explicar toda a dinâmica dos processos da vida, pois a explica em termos mecânicos e estáticos.  Se Bakhtin achava a visão do vitalismo sobre a vida muito fraca, qual era então a visão dele? Ele considerava a neutralidade. Neutralidade a ponto de ser uma abordagem positivista.
               Bem, o Kanaev fez uma porção de trabalhos com a hidra e ajudou Bakhtin a provar que o vitalismo não era verdade.





FONTE:
THE BAKHTIN CIRCLE :  IN THE MASTER ABSENCE -


sábado, 5 de abril de 2014

Um pouco de Filosofia da Biologia


                    Independentemente de acreditar em Deus ou em Darwin, eu consigo crer na Vida! Observando aqui o padrão de crescimento de uma muda de espada de São Jorge que minha mãe me deu, uma muda que agora já está até grandinha, mas que começou como um pedaço de planta que foi retirado de outra planta que é cultivada há exatos 31 anos, desde que nasci, comecei a refletir sobre o quanto a Vida está acima de tudo, o quanto se faz presente nesse planeta, estando conectada geração após geração, desde uma célula primitiva, coacervada, nos primórdios do planeta até os dias de hoje, numa cabeça pensante que reflete sobre si mesma ou numa planta com a incrível capacidade de crescer a partir de um pedaço de si mesma, e tudo isso através de uma ligação qu

e todos nós, seres viventes, temos desde o início dos tempos: o DNA. Eu sento, bebo um café e fico silenciosamente conversando com essa plantinha, que é praticamente uma versão vegetal de mim mesmo. Tão bonito o padrão de crescimento dela, em espiral. Uma espiral que remonta um tempo perdido além da memória humana - espada de são jorge, com suas folhas rígidas, sem dúvidas está aqui na Terra há muito mais tempo que nós seres humanos, e sem dúvidas permanecerá depois que nos auto-destruirmos enquanto espécie, pois ela além de resistente, se regenera, cresce e se adapta muito rápido. Tudo bem que o modelo do DNA já foi descrito.Tudo bem que os fisiologistas vegetais já provaram que a planta só cresce rápido em direção ao sol porque precisa realizar fotossíntese. Tudo bem que a reprodução assexuada já foi estudada em todos seus aspectos e descrita. Tudo bem a Teoria da Evolução já foi empiricamente testada e não passa de uma lei natural. Tudo bem. Mas eu não consigo deixar de achar isso mágico, encantador, fabuloso, emocionante.... divino! Essa permanência da Vida acima de todas as coisas, mesmo sobre a morte. A morte está inclusa no grande fenômeno que denominamos Vida. 

Me arrisco a falar um pouco sobre a filosofia da Biologia, que ajudará a esclarecer o meu ponto de vista. Nessa disciplina temos como uma das perguntas fundamentais a discussão do que é a individualidade? O que é um organismo? O que separa um organismo de outro? Uma membrana? Um corpo? Mas e quanto aos seres que vivem em colônias, com os corpos ligados uns aos outros, corpos que brotam de órgãos e crescem até se tornarem outro indivíduo? E quanto aos insetos eussociais (formigas, abelhas, vespas), que possuem populações inteiras, dentro de uma colônia, que são inférteis, existindo apenas para cuidar dos descendentes da Rainha, existindo não para se multiplicarem individualmente, mas para cumprir um propósito maior que elas mesmas. Alguns autores preferem chamar a colônia inteira de superorganismo. Posso ainda citar a teoria do gen egoísta (para mais detalhes procurem o texto de Richard Dawkins), que, grosso modo, diz que todo o comportamento animal, seja agressivo, comportamento de corte, cuidado parental, cooperativo, altruísta ou egoísta, tem como, digamos, uma segunda intenção, a transmissão de genes para as gerações futuras. Transmissão dos meus genes de preferência. Os leões, por exemplo, se se casam com uma leoa que já tem filhos, assassinam os filhotes do outro macho, para demarcarem seu terreno e transmitir seus genes - provavelmente melhor adaptados. Ou seja, é como se toda a diversidade, toda Evolução, estivesse agindo num sentido (sentido 3' 5' - é uma piada nerd de biólogo qualquer dia explico), no sentido de manter a vida adaptada ao planeta. E é nisso que acredito. É isso que observo, a incrível força que surge quando o assunto é manter a Vida.

A História do Corpo - parte II - Corpo e Mídia

                  Nós temos alguma espécie de câmera ou olho interno que nos permite ver o próprio corpo e os processos que ocorrem dentro dele ou construímos esses modelos mentais a partir das representações, desenhos, imagens, aulas e observações com que interagimos?
          As representações são convenções visuais, signícas que expressam alguma realidade ou esquematizam algum modelo científico.
       "Para Jodelet (1986) e Moscovici (1978), as representações sociais são formas de conhecimento do mundo, construídas a partir do agrupamento de conjuntos de significados que permitem dar sentido aos fatos novos ou desconhecidos, formando um saber compartilhado, geral e funcional para as pessoas, chamado de senso comum. Jodelet (1984) enfatiza a importância do estudo do corpo a partir da perspectiva das representações sociais, pois estas assumem um papel importante na elaboração de maneiras coletivas de ver e viver o corpo, difundindo modelos de pensamento e de comportamento a ele relacionados. Nesse sentido, Jodelet (1994) afirma que a imagem externa do corpo aparece como um mediador do lugar social onde o indivíduo está inserido. Além disso, a autora descreve o corpo também como mediador do conhecimento de si e do outro, que se estabelece a partir das relações com o outro. (GOETZ et al, 2008)"
                  O discurso é tudo aquilo que, mediado pela palavra, ou pelo signo, gera algum sentido. A mídia veicula representações em diversas linguagens, de forma abrangente e veloz. Se nos relacionamos com nossos corpos a partir das representações que percebemos e se a mídia tem um grande poder de veiculação de representações o que está sendo divulgado por essa mídia? Qual o poder do discurso sobre nossos corpos?
              Entendemos a mídia como um dispositivo pedagógico, chamado dentro da perspectiva dos Estudos Culturais de pedagogia cultural, uma vez que ela nos ensina alguma coisa, pois nos transmite uma variedade de formas de conhecimento que são vitais na formação da identidade e da subjetividade (SILVA,1999). A mídia indica modos de proceder com nossas masculinidades e feminilidades e constrói verdades por meio de múltiplas estratégias; nela, o poder é organizado e difundido em relações sociais desiguais.
       Se existem padrões de beleza que mudam ao longo do tempo e são apresentados por esse discurso midiático, como as pessoas estão se relacionando com esse padrão que é imposto? Existem doenças que surgiram com a evolução dos meios de comunicação? Anorexia e bulimia são duas enfermidades psicossomáticas (uma doença da mente que logo toma conta do corpo) que surgiram nesses tempos contemporâneos de velocidade de mudanças nos padrões de se vestir, de ser, de um consumo exageradamente estimulado. Se em um ano existe um ídolo da música ou da televisão que se torna um padrão de beleza, uma figura admirada e copiada por várias pessoas, no outro, a indústria do showbizz já lança alguma outra personalidade a ser copiada que se enquadre melhor nas tendências e padrões de beleza que se dita ou que é "mais aceito pela opinião pública". Anorexia e bulimia são o exemplo mais clássico que temos de doenças novas que surgiram em pessoas que obsessivamente tentam acompanhar essas mudanças impostas pelo mundo midiático, pela indústria da moda, por um conjunto de empresas (que vendem roupas, cosméticos, vitaminas para aumentar a massa muscular ou chás para emagrecer - e que pagam os espaços publicitários dos grandes meios de comunicação). Grosso modo, anorexia é uma obsessão por magreza, um estado  mental patológico onde a pessoa não consegue mais se alimentar corretamente e deixa de comer com uma ilusão de que precisa emagrecer cada vez mais. Bulimia é outro distúrbio no qual a pessoa não tem controle sobre o que come (eu sugeriria como uma das causas desse distúrbio as sugestões publicitárias que em muitos casos convence as pessoas a consumir mais do que realmente necessitam), e acaba ingerindo muito mais comida do que o organismo necessita e depois provoca vômitos para evitar o ganho de peso. Essa prática, cometida em excesso, acaba desgastando as mucosas do tubo digestivo podendo ocasionar problemas mais graves.
     As revistas, como parte dos meios de comunicação de massa, também se configuram como uma potente forma de ‘educar’, ou seja, de conformar corpos na sociedade, na medida em que atuam como meios de formação e de informação sobre a vida, o corpo, a ciência, sobre modos de ser e viver (FREITAS, CHAVES, 2013). As revistas podem ser consideradas como um dispositivo pedagógico não só por serem utilizadas na escola como recurso pedagógico, mas  por serem elas próprias pedagogias, ao participarem na composição da visão de mundo das pessoas, formando conceitos, que estruturam percepções, comportamentos e compreensões.
     Sendo assim, vale lembrar que nem tudo o que é divulgado em uma revista científica pode ser tomado como absoluta verdade, até mesmo porque o que chamamos de verdade é algo que foi convencionado por um grupo de pessoas. Podemos, de fato, falar mais sobre uma intenção da verdade, do que de uma verdade absoluta, propriamente dita. Todo conhecimento é produzido em determinado contexto e por convenção e repetição se torna o que chamamos de verdade. Mas nós que fazemos ciências, que pesquisamos seu ensino, sabemos que não existe uma neutralidade nessa prática, sabemos que tudo que é produzido em determinada época e contexto, atendendo a interesses de grupos restritos. Por isso é bom sempre desconfiar da informação que recebemos, seja checando as fontes ou buscando entender a qual ideologia a publicação é atrelada, pois isso determina muito a forma em que a informação é veiculada, geralmente se mostra apenas o que é relevante para enaltecer um ou outro posicionamento político. Mas como diria meu amigo Foucault - o discurso é uma prática da linguagem que exerce um efeito e esse efeito pode ser direto sobre a vida das pessoas. Na contemporaneidade, temos informações nos sendo bombardeadas a cada segundo, conhecimentos científicos que nos são apresentados de uma forma já pronta, sem que, muitas vezes, saibamos como, onde, por quem e para que foi produzido.
         Buscaremos discutir a naturalização dos gêneros fabricada em relações de poder presentes em discursos científicos, como por exemplo, nos discursos sobre evolução, genética, neurociências, bioquímica, anatomia, fisiologia, dentre outros, utilizados por cientistas e jornalistas nas revistas de forma supostamente isenta de forças sociais, culturais, políticas,  econômicas, tomados como meras descrições, explicações, conhecimento. Dessa forma, procuramos problematizar o caráter contingente dos discursos biológicos como conhecimentos produzidos em instâncias, instituições e processos culturais que estão, como qualquer outro discurso, conectados em intrincadas relações de poder. (CHAVES, 2013 adaptado)
          Assim, nossa preocupação não é com a “verdade” científica, mas analisar a força que esses discursos, proposições biológicas, possuem por encontraremse “no verdadeiro” , por formarem a complexa grade da ordem do discurso (CHAVES, 2013; FOUCAULT, 2009).
            É notável a maneira com que as representações do signo na publicidade sofre metamorfoses se consideradas as três últimas décadas (anos 80, 90 e 2000). O corpo se metamorfoseia inicialmente nos anúncios trazendo consigo signos os mais diversos. Após um intervalo de tempo, cada vez mais reduzido, as mudanças são sentidas na sociedade: na relação de cada indivíduo com seu corpo, naqueles que seriam os índices de beleza, sucesso e prazer ideais e desejáveis ao se falar de corpo.
(https://www.youtube.com/watch?v=5DJQ4G0Voq8 - Endereço do vídeo de palestra de uma bióloga norte-americana demonstrando, biologicamente, que os papéis de gênero são uma construção social humana. 
             Adriana Braga no artigo Corpo e Mídia: fragmentos históricos da imprensa feminina no Brasil, faz uma acurada análise nas publicações femininas desde suas fundações na Inglaterra do século XVII. As publicações voltadas para o público feminino sempre tiveram um caráter "aconselhador", determinando padrões e dando dicas de comportamento, geralmente sugerindo que as mulheres se comportassem como donas-de-casa, mães e subservientes à Deus e ao pai ou marido. Essas revistas eram sustentadas por publicidade das lojas de moda ou produtos femininos e seu conteúdo versava sobre saúde e assuntos relacionados ao lar. Por alguns títulos da época, carregados de um discurso conservador, O Lírio, A Violeta, A Borboleta, O Beija-Flor, A Esmeralda, A Grinalda, O Espelho pode-se inferir como a mulher era vista pela sociedade desse tempo. Em revistas mais contemporâneas, como a Nova e a Marie Claire, Swain (2001) concluiu em um estudo que essas publicações sugeriam perfis do corpo feminino em suas capas e conteúdos, geralmente de mulher heterossexual, magra ou com toques de maternidade. Um outro perfil de corpo sugerido pela revista é o de um corpo "melhorado" pela tecnologia, com cirurgias plásticas estéticas ou implantes de silicone. As revistas sugerem que o modelo corporal adotado estaria ao alcance de todas e que a beleza seria a condição essencial para o romance e a felicidade. 
           Edgar Morin (1986: 111) aponta esse caráter de conselheira das mídias, que traz “além das informações,  conselhos, e incitamentos de toda ordem”. Uma mídia que recorre a uma espécie de sabedoria leiga acerca do corpo que     associa bom senso a outros campos do saber – científico, estético, médico – na tentativa de se constituir em autoridade para falar sobre a mulher, e nessa fala, pode-se notar uma pedagogia, modos de dizer, de convencer, que visam indicar sobre esse corpo, condutas, comportamentos e técnicas próprias de seus discursos, através de suas enunciações. O conhecimento é positivado para tutorizar o modelo ideal de corpo. Tarefas que eram confiadas a outras matrizes da sociedade (almanaque, literaturas que circulavam preocupadas com a questão da performance do corpo feminino) quando se tratava da formação da mulher, vão sendo desempenhadas, em uma larga medida, pela imprensa feminina. A mídia trabalha um corpo ideal, mas subjacente a esse trabalho discursivo, ela está instituindo um ideal de corpo. (BRAGA, 2007)
O campo midiático reflete a sociedade e a cultura nas quais está inserido. Através do conteúdo e da forma de uma peça de mídia, vários aspectos da sociedade que a produz podem ser identificados. Pensada, elaborada e produzida por profissionais de uma mesma coletividade, a mídia influencia e é influenciada pela cultura que a abriga. As mídias não só interpelam os indivíduos da sociedade, como também articulam significados, construindon expectativas ligadas a identidades sociais particulares.
Sendo assim, como não temos aquele olhar interno e absoluto sobre nós mesmos, é bom estarmos atentos às impressões sobre o corpo que recebemos e nos padrões de comportamento que sutilmente nos são sugeridos. 
E o que falar do corpo que está conectado a essa supermídia, a internet? Alguns teóricos contemporâneos forjaram o termo "hipercorpo" para denomimar uma imensa quantidade de corpos, mentes e dados interconectados através da rede. Esse é um assunto novo, interessante, e que rende uma boa prosa. Por isso será o tema do próximo capítulo da história do corpo. 
Hasta!

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRAGA, Adriana. Corpo e Mídia: fragmentos históricos da imprensa feminina no Brasil. - 1.o Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho: Mídia Brasileira: 2 séculos de história.

SANTOS Corpo--Mídia ou Corpo--Suporte? – representações do signo corpo em publicidades de perfumes.

FOUCAULT, Michel - A ORDEM DO DISCURSO

FREITAS, L.; CHAVES, S - DESNATURALIZANDO OS GÊNEROS: UMA ANÁLISE DOS DISCURSOS BIOLÓGICOS - Revista Ensaio, Belo Horizonte, 2013.

GOERTZ, Everley; CAMARGO, Brigido - REPRESENTAÇÂO SOCIAL DO CORPO NA MÌDIA IMPRESSA - Revista Psicologia e Sociedade, 226- 236p., Florianópolis, 2008.

sábado, 8 de março de 2014

A HISTÓRIA DO CORPO - parte I

                   Falar sobre o corpo humano abrange um leque vasto de assuntos, que de uma forma ou de outra é do interesse de todos, afinal, todos habitam em um. Médicos, educadores físicos, esportistas e alguns ramos da Biologia se preocupam com maior especificidade com esse tema, mas o tema perpassa todas as áreas, já que todas as áreas são feitas por pessoas e estas estão em seus corpos. 
                    Mas.... que corpo humano o professor de Biologia quer, pode e deve mostrar em sala de aula? As representações do corpo humano que conhecemos são meramente arbitrárias ou realmente descrevem a realidade? Um atlas anatômico faz uma pessoa conhecer melhor seu organismo, como este funciona e como posicioná-lo no mundo?
            O filósofo francês Michel Foucault em O nascimento da clínica remonta a história de como a medicina percebe o corpo e sua relação com as doenças ao longo dos períodos históricos. No século XVI as doenças eram consideradas entidades que se aproximavam do paciente, conforme o humor do paciente fosse compatível com aqueles entes que causavam a enfermidade. Antes da medicina ter alguma base científica mais rigorosa, era fundamentada em crendices, experimentações empíricas e impressões. A relação da medicina com as mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas  altera a forma que as coisas são ditas ou vistas, ao longo dos períodos históricos. Nossa percepção do corpo como o espaço natural da origem e distribuição das doenças é uma das muitas formas que a medicina construiu seu conhecimento.
                       Mais tarde, no século XVII, a medicina passa a ter enfoque maior nos sintomas, em como os sintomas das doenças se manifestavam no corpo. Com a descoberta do microscópio, a medicina ganha uma  dimensão técnica, com esse novo ohar, e pode-se perceber com uma clareza maior a relação entre os tecidos do corpo e seus agentes infecciosos. A medicina começa uma prática de examinar os cadáveres e o corpo cortado, seccionado, para que se conhecesse cada vez com maior detalhe as estruturas que possuímos e como funcionam e se relacionam.
                   A biologia celular e depois a molecular trazem novas técnicas de abordagem da pesquisa médica e de sua visão das doenças com relação ao corpo. Pasteur desenvolve métodos de pesquisa microbiológica, o que novamente vai mudar o olhar que a medicina tem sobre a relação doença - corpo - paciente. Agora tudo poderia ser solucionado a um nível bioquímico e molecular. Essa literal secção nos estudos sobre o corpo tem algumas vantagens, pois esse enfoque molecular possibilitou, por exemplo, um maior entendimento do modelo da segregação das característica hereditárias e da transmissão dos genes, a consolidação da teoria evolutiva de Charles Darwin, com algumas de suas lacunas sendo respondidas o início das formulações das teorias do NeoDarwinismo (que explica  a variabilidade, adaptação e especiação em termos de genética e genética de populações), além de uma compreensão mais acurada dos processos patológicos a nível celular e molecular. Mas voltando ao corpo: suas descrições, nomenclatura, e a visão que os profissionais da saúde tinham e alguns ainda têm sobre ele é ligada aos fundamentos do cientificismo positivista, iniciado com René Descartes, que comparava os mecanismos de funcionamento dos organismos vivos aos de um relógio ou máquina. Processos que podiam todos ser compreendidos, medidos, explicados com postulados da física e da química. Na genética, quando descobriram que as mutações eram uma mudança na sequências das bases nitrogenadas do DNA e que isso alterava a síntese proteica  surgiu uma série de teorias que tentava explicar os comportamentos, gostos, opções ideológicas do sujeito de forma mecânica, como se o genoma pudesse ser todo contabilizado e cada função ou comportamento fosse unilateralmente ligado a um determinado gene  Hoje sabe-se que essa relação é um pouco mais ampla e complexa, uma função pode ser ordenada por um conjunto de genes em interação, ou apenas um lócus gênico pode comandar a síntese de uma proteína que desencadeará uma série de mudanças e reações no organismo todo e o genoma interage com o ambiente também, pode sofrer deleções de genes, mutações,  existem partes que são desativadas e outras que podem ativar e desativar conforme as necessidades do organismo ao se adaptar ao ambiente.
                         Apesar do avanço nas abordagens das pesquisa de áreas como a genética e a psicologia (que entende o corpo e a mente não somente em seus aspectos biológicos, mecânicos, mas em sua relação consigo mesmo, com o ambiente e com as condições sócio-históricas, econômicas e emocionais  ou seja, de saúde em seu aspecto mais holístico, como conceituado pela Organização Mundial de Saúde), a medicina e a biologia ainda tem uma visão do corpo muito ligada ao positivismo. Os modelos explicativos dos mecanismos do corpo são muitas vezes quantificados, seccionados,  e analisados a um nível molecular muito eficiente.... mas que não são eficientes para explicar modelos de integração e interação entre as partes do organismo vivo. E isso é ligado ao antigo paradigma mecanicista da ciência - os próprios termos que usamos - mecanismos, bomba de K+ Na+, planos, divisão, sistema, sistema de alavancas, aparelhos, processo, maquinaria enzimática, válvulas, etc - remetem a sistemas humanos, máquinas, a um paradigma mecanicista de descrição de um corpo vivo e em integração constante, que no entanto tem sua descrição baseada em suas partes já mortas e seccionadas.
                           Essa abordagem mecanicista nos estudos sobre o corpo humano, reducionista em seu método, foi a responsável pela categorização de uma quantidade imensa de novos termos para conceituar todas essas partes do corpo que iam aos poucos sendo dissecadas e descritas. A dissecação dos componentes do corpo em partes cada vez menores e o aumento significativo da nomenclatura que identifica e também descreve todas essas partes, ao serem transpostos para o conteúdo do currículo escolar, apesar das diversas modificações as quais já passaram, trazem consigo uma carga de nomenclatura técnica específica numa linguagem universal que entretanto muitas vezes se distancia da linguagem cotidiana dos estudantes.  Essa "outra linguagem" falada pelo professor de biologia, técnica, se não for bem trabalhada didaticamente acaba resultando no desinteresse e aborrecimento dos aprendentes. Faço abaixo uma citação do livro Anatomia Básica, de Dângelo e Fattini, um livro canônico nas disciplinas de anatomia dos cursos de Medicina, Biologia e Educação Física sobre a evolução da nomenclatura anatômica:
                           "Como em toda ciência, a Anatomia tem uma linguagem própria. [...] Com o extraordinário acúmulo de     conhecimentos no final do século passado, graças aos trabalhos de importantes escolas anatômicas (sobretudo na Itália, França, Inglaterra e Alemanha), as mesmas estruturas do corpo humano recebiam denominações diferentes nestes centros de estudos e pesquisas. Em razão desta falta de metodologia e de inevitáveis arbitrariedades, mais de 20.000 termos anatômicos chegaram a ser consignados (hoje reduzidos a pouco mais de 5.000). A primeira tentativa de uniformizar e criar uma nomenclatura antômica internacional ocorreu em 1895. Em sucessivos congressos de Anatomia em 1933, 1936 e 1950 foram feitas revisões e finalmente em 1955, em Paris, foi aprovada oficialmente a Nomenclatura Anatômica. A nomenclatura anatomica tem caráter dinâmico, por isso é frequentemente revista, podendo ser sempre criticada e modificada. A nomenclatura procura adotar termos que não sejam apenas sinais para a memória, mas tragam também alguma informação ou descrição sobre a referida estrutura. Dentro deste princípio, foram abolidos epônimos (nome de pessoas para designar coisas) e os termos indicam: forma (músculo trapézio), posição e situação (nervo mediano), trajeto (artéria circunflexa da escápula), conexões ou interrelações (ligamento sacro-ilíaco), relação com o esqueleto (artéria radial); função (levantador da escápula). Existem também nomes impróprios ou não muito lógicos que foram conservados, porque estão consagrados pelo uso (fígado, por exemplo cuja etimologia é discutida). "

                             Todo o estudo de Anatomia Humana é feito com base nesses cortes do corpo, dessa percepção reducionista das partes que integram o corpo e essa metodologia de análise é transposta para o discurso que o professor carrega para a sala de aula, ao ensinar sobre as partes do corpo. Mas quais os efeitos de conhecer o próprio organismo sempre através de representações de suas partes constituintes? Somos feitos de tijolinhos e sistemas separados? O corpo vivo é realmente como uma máquina? Ou existem processos subjetivos, emocionais, sociais que interferem na dinâmica de funcionamento desse corpo? Somos sistemas estanques, aparelhos apenas constituídos para executar uma função independente? Estudar o sistema imunológico e sua interação com os sistemas endócrino e nervoso dá uma pista de como o corpo funciona além de suas partes isoladas com funções mecânicas e específicas, mas numa integração com o ambiente e com as outras partes do corpo. A condição emocional e de alimentação de uma pessoa, por exemplo, pode alterar diretamente a produção de células de defesa do organismo alterando a relação que o organismo tem com agentes infecciosos. Não é apenas uma questão de um microorganismo especifico que se liga automaticamente a um receptor passivo, mas de como essa relação acontece. Mas de quais condições vão favorecer que um ou outro lado "vença".                  E as representações do corpo que recebemos, inclusive aquelas para além das aulas de biologia? O que é um corpo saudável e um corpo bonito? O corpo que aparece na televisão, nas academias, nas revistas de moda é o verdadeiro corpo saudável? Temos que seguir esse padrão? Esse modelo mecanicista de explicação do corpo, essa crença de que o corpo agora pode ser manipulado pela medicina, pelas academias e produtos de "turbinamento" do corpo, por cirurgias de correção meramente estéticas e que são feitas apenas por quem pode bancar os altos custos? Esse império da magreza e da branquificação imposto sobre as mulheres, sobretudo as negras no caso da "branquificação", que as fazem lutar contra seus próprios corpos, muitas vezes numa busca exagerada por saúde e beleza, com apelos para "bombas", cirurgias, e até o desencadeamento de novas doenças psicofisiológicas como a anorexia.
                   E qual o papel dos livros de Biologia em suas representações do corpo? Quem é responsável pela formação da subjetividade na relação que o aprendente terá com esse corpo próprio, em desenvolvimento? O corpo é realmente como uma máquina, fatiado em sistemas estanques? Os aparelhos reprodutores humanos, são dióicos da maneira que são apresentados servindo meramente para a reprodução, produção e posterior união de gametas? Onde fica a subjetividade humana no meio da aprendizagem desse corpo-máquina? Aqui chegamos a um ponto em que a crítica à Biologia perpassa essa disciplina e esbarra em questões sociais, filosóficas, políticas e religiosas. Pessoalmente acredito que os livros de biologia de nível médio estão incompletos. Se nós, professores de ciências e biologia temos no escopo da nossa disciplina o tema do corpo, da reprodução e das transformações da puberdade, é imperativo que percebamos o quanto esse assunto está limitado nos livros didáticos, o quanto algo que chamamos de heteronormatividade (a crença de que as pessoas usam seus aparelhos reprodutores única e exclusivamente com fins reprodutivos e que a única forma de relacionamento sexual existente, correta, sacralizada é a heterossexual com fins únicos de reprodução e de quem está a margem desse padrão é "errado", "profano", "safado", etc que acaba desencadeando reações de violência, perseguição e exclusão de muitas pessoas) é reforçado pela maneira mecanicista e vazia com que este conteúdo é apresentado. É reforçado esse padrão, que em última instância é machista e capitalista, quando questões como a inter, a homo e a transexualidade são simplesmente ignoradas nos livros didáticos de nível médio, isso muito provavelmente com base na falsa crença de que se um jovem ver ou ter contato com uma pessoa que tenha uma orientação sexual diferente, será "contaminado" por isso. Falsas crenças que impedem o desenvolvimento da ciência e a meu ver também de quem estuda essa ciência. Isso é o que chamamos de biologismo, quando tentam explicar fenômenos sociais com base em algum postulado da Biologia, que no entanto é uma análise vazia, de apenas uma parte dessa ciência não a contemplando como um todo. Simone de Beauvoir tenta derubar esse biologismo ao construir sua teoria da construção social de gênero. Tentam usar a biologia para justificar a desigualdade entre os gêneros, e a naturalização dos desiguais papéis atribuídos a cada gênero, como se fosse algo que a natureza tivesse determinado. Sabemos que na natureza, apenas metade das espécies se reproduzem com a fusão de gametas masculinos e femininos, a outra metade, que significa uma biodiversidade imensa, se reproduz por maneiras alternativas - ou partenogênese - somente fêmeas - ou brotamento, cissiparidade, gemulação, desenvolvimento de colônias..... Essa idéia da dicotômia sexual está muito mais ligada a uma construção social e humana, do que biológica. Nós atribuímos tais e tais papéis ao homem e tais e tais papeis a mulher e condenamos quem não se enquadra nisso. Beauvoir utiliza a biologia mais uma vez para construir sua teoria quando demonstra que uma porcentagem da humanidade é geneticamente indeterminada sexualmente, o que chamamos de intersexo. Aproveito para fechar trazendo um pouco de informações sobre esse fenômeno biológico da intersexualidade, geralmente negligenciado pelos livros didáticos:

Pela Sociedade Norte Americana de “Intersexo” - ISNA  
"Intersexo" é um termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual, que não parecem se encaixar as definições típicas de sexo feminino ou masculino. Por exemplo, uma pessoa pode nascer parecendo ser do sexo feminino do lado de fora, mas tendo a maioria de sua anatomia interna tipicamente masculina. Também podem ocorrer nascimentos onde a criança pode nascer com genitais que parecem estar entre as formas típicas masculinas e femininas: uma menina pode nascer com um clitóris visivelmente grande, considerando esses padrões típicos, ou falta uma abertura vaginal, ou um menino pode nascer com um o saco escrotal não totalmente fundido de modo que se parece mais como lábios. Existe também a possibilidade de uma criança nascer com mosaicismo genético, de modo que algumas das suas células possuem cromossomos XX (informações genéticas femininas) e alguns deles têm XY (informações genéticas masculinas).

Apesar de falarmos de “intersexo” como condição do nascimento, a anatomia dos intersexuais nem sempre são encontradas no momento do nascimento. Às vezes uma pessoa não conhece a condição de “intersexo” até que ela ou ele alcance a puberdade, ou descobrir ser um adulto infértil. Algumas pessoas vivem e morrem com a anatomia “intersexual” sem que ninguém nunca tenha conhecimento, nem eles mesmos.

Afinal, quais variações da anatomia sexual são consideradas como “intersexuais”? Na prática, diferentes pessoas apresentam múltiplas respostas para essa pergunta. Isso não é surpreendente, porque não se trata de uma categoria natural. E o que isso significa? “Intersexual” é uma categoria socialmente construída.
A natureza nos presenteia com espectros da anatomia sexual: seios, pênis, clitóris, escroto, lábios, gônadas. Todas estas variam em tamanho e forma. Os então chamados cromossomos sexuais, X e Y, também podem variar um pouco, mas nas culturas humanas a categorização do sexo simplifica em masculino, feminino, e às vezes “intersexo”. Essa divisão é realizada a fim de “facilitar” as interações sociais, expressar o que sabemos e sentimos, e manter a ordem. Portanto, a natureza não decide onde a categoria de "homem" termina e onde a categoria de "intersexo" começa, ou onde começa a categoria de "intersexo" e termina a categoria de "mulheres". Quem decide somos nós, os seres humanos.

O ISNA (Intersex Society of North America) encontrou em seus trabalhos de pesquisa que as opiniões dos médicos sobre o que deve  contar como "intersexo" variam substancialmente. Alguns pensam que você tem que ter alguma ambiguidade genital, alguma diferença de forma “típica” para contar como “intersexo”, mesmo se o seu interior é, em sua maioria, de um sexo e seu exterior é na maior parte do outro. Outros pensam que o seu cérebro tem que ser exposto a uma mistura incomum de hormônios durante a gestação, no período pré-natal, para contar como “intersexo”. Desse modo, mesmo se você tenha a genitália “atípica”, você não está categorizado como “intersexual”, a menos que seu cérebro tenha experimentado desenvolvimento atípico. Ainda existem aqueles que pensam que o indivíduo deve ter os dois ovários e tecido testicular, ao mesmo tempo, para contar como “intersexo”.

O ISNA adota uma abordagem prática e pragmática para a questão: trabalha para construir um mundo livre de vergonha, sigilo e sem procedimentos cirúrgicos genitais não desejados nem consentidos para qualquer pessoa nascida com o que alguém acredita ser fora do padrão da anatomia sexual. Apesar de todas essas considerações, algumas formas de “intersexo” podem ser sinal de preocupação metabólica: se alguém pensa que pode ser “intersexual”, esse alguém deve procurar um diagnóstico e descobrir se precisa de atendimento de um profissional de saúde.

Texto retirado do site http://gecopros.blogspot.com.br/2012/01/o-que-e-intersexo.html
Mais informações : http://transfeminismo.com/2012/06/05/dez-ideias-falsas-sobre-pessoas-intersexo/

 A existência de pessoas intersexo pode ser um desvio-padrão da média, mas isso não significa que essas pessoas tem que ser invisibilizadas, negligenciadas e "corrigidas" cirurgicamente muitas vezes contra sua própria vontade. A existência dessas pessoas também corrobora a teoria de que o gênero é contruído, é mais uma conveniência humana do que um fator natural, pois a natureza se expressa de muito mais formas do que podemos categorizar. 


Assim, fecho essa primeira parte propondo duas reflexões: o quanto os livros de biologia estão incompletos e até onde não estão reforçando um sistema excludente e preconceituoso? O quanto essa abordagem fragmentada do corpo leva a uma relação também fragmentada com o conhecimento do próprio corpo e do próprio Ser?

P. S. - Não vou anexar fotografias dos genitais das pessoas intersexo, pois são imagens fortes e... íntimas! Quem se interessar pelo assunto ou tiver curiosidade de ver essas fotos, procure nas referências dos sites indicados!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS:

CAPRA, FRITZJOF - O ponto de mutação - Ed. Cultrix, São Paulo, 1982;

DANGELO, JOSÉ GERALDO; FATTINI, CARLO AMÉRICO - Anatomia Básica dos Sistemas Orgânicos - com descrição dos ossos, junturas, músculos, vasos e nervos - Ed. Atheneu, São Paulo, 2001.

HORROCKS, CHRIS; JEVTIC, ZORAN - Introducing Foucault - Icon Books UK, 1997;

MOREIRA, WAGNER WEY -  Século XXI - A era do corpo ativo - Ed. Papirus, Campinas, SP, 2006;

SANTOS, BOAVENTURA DE SOUZA -  Um discurso sobre as ciências - Ed. Cortez, São Paulo, 2008; 

TRIVELATO, SILVIA LUZIA FRATESCHI - Ensino de Biologia - Conhecimentos e valores em disputa -QUE SER HUMANO CABE NO ENSINO DE BIOLOGIA? - QUE CORPO/SER HUMANO HABITA NOSSAS ESCOLAS? - Niteroi, Ed. Eduff, 2005;









                

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O QUE É SER NEGRO?


   Reelaborando uma resposta a uma pergunta que me foi feita ontem a noite no bar-sala-de-aula Vagão Leite de Castro, resposta cujo grau etílico em que eu me encontrava não permitiu uma resposta digna no momento. Agora vai aí a resposta:
    Na minha humilde e embasada opinião, negro, é uma etnia (pois já se diferenciaram enquanto populações onde todos indivíduos compartilhavam essa cor de pele e uma certa cultura, ligada às origens africanas) e não é uma raça (esse conceito é construído sócio-historicamente, fundamentado em falsas ideias evolucionistas para se justificar. Em Biologia, a cor da pele é somente uma variação fenotípica, dentro de uma mesma espécie. Absolutamente não há raças humanas diferentes, não há "melhor" ou "pior". Há variações fenotípicas, dando uma pincelada na genética de populações: variação necessária, dentro de uma mesma população para manter a integridade do conjunto genômico da espécie. Em outras palavras: essas variações são necessárias para garantir a perpetuidade e integridade de uma população. Se todas as expressões fenotípicas fossem iguais, um parasita, por exemplo, poderia extinguir a espécie em poucas gerações. Portanto, galera, a pluralidade de expressões fenotípicas - negros, brancos, orientais, miscigenados, etc..- é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie. Assim, agora que sabemos que o conceito de raça é mais histórico/social/ideológico/cultural do que biológico, me arrisco a dizer que ser negro é uma questão de identidade. Uma questão de com o que e com quem e qual cultura você se identifica. Acontece que não sempre que existiu o conhecimento de que negro é só uma variação fenotípica da mesma espécie. No passado, esse grupo social foi violentamente explorado por outro grupo que se achava superior, os brancos.  Os negros foram escravizados, objetificados, vistos sempre como "exóticos", dede a época dos circos medievais que expunham negros como aberrações até o concurso da Globeleza 2014, que reafirma o estereótipo de que o lugar da mulher negra bonita é no máximo sambando semi-nua e papagaiada no carnaval. E não reclama não! Olha que glamour! Não me venha com seu drama, esse tal preconceito não existe! 
     
       Querido Bourdieu e seu conceito de violência simbólica, que mudou radicalmente minha visão de mundo. Os negros, desde a época das navegações, vêm sofrendo a imposição da cultura branca, "melhor", "mais limpa", "mais rica", " mais alva", "mais santa". Negro? Negro é "escuro", "ruim", "bandido", "pobre", "burro", "feio"... De tanto ouvirem essas falsas noções de inferioridade e superioridade, muitos negros acabaram introjetando essas noções preconceituosas e acabam por aceitar o branco como superior e melhor.
      Num país miscigenado e colonizado como o Brasil, essas noções ficam um pouco mais difusas e confusas. Como o negro sofre violência simbólica do branco desde sempre, existe uma grande naturalização do preconceito, uma grande naturalização inconsciente e que parte tanto de negros quanto de brancos dessa ideia de que o branco é melhor e o preto é pior. O "moreno", "mulato", "café-com-leite" brasileiro, sob essa perspectiva, está numa situação fragilizada. Muitos não sabem qual é a sua identidade: sofrem violência simbólica (numa análise bastante otimista, pois boa parte da população negra está é sendo sangrentamente exterminada mesmo) desde a fundação do país, então acabam orientando sua identificação no sentido de uma branquificação. A cantora de funk Anitta é o exemplo clássico dessa identidade negra em conflito e que tende a colocar o branco como superior: a medida que a cantora foi ficando mais famosa, foi mudando seu jeito de se vestir, se maquiar e arrumar o cabelo, ficando cada vez mais semelhante a uma mulher branca. Agora ela é rica e isso só pode ser coisa de branco né gente?? Esse "moreno-claro", que prefere se reconhecer como branco, que tem vergonha de sua origem negra e aceita ser branquificado (o que acontece através de jargões preconceituosos difusos, que a própria pessoa oprimida reproduz, ou que são naturalizados nas piadas e programas de TV, e vão de comentários que pregam uma falsa igualdade como o "vocês não tem que ter privilégios, somos todos iguais...", " você já tem seu lugar, olha o carnaval e o futebol..." " e esse cabelo ruim aí, posso pegar?" até o horripilante "cor de merdinha" que tive que escutar ontem a noite.) sem dúvidas é um sujeito que não tem consciência da violência simbólica histórica que sofre. Sem dúvida em um momento ou outro acaba acreditando nessa falácia de que o branco é melhor. 
      "Sou moreno-claro". Já conheci algumas pessoas que se apresentam assim, quase como se dissessem "não sou tão negro ó, sou quase branco...".  Eu sou meio sem vergonha, pois minha condição genética não permite que eu me aproprie dessa identidade, já que minhas origens são portuguesas e indígenas, mas apesar disso eu transgrido as convenções e bato no peito pra falar: Eu sou negro! Sou negro e não mulato, não cafuso, não moreno-claro e nunca, mas nunca mesmo, cor-de-merdinha.... Mesmo sendo fenotipicamente branco e índio, sou negro por reconhecer o quanto esse grupo social foi oprimido. Por reconhecer o quanto sua riqueza cultural e sua força de trabalho construíram esse país. Sou negro porque nunca fui atendido por um médico negro, nunca vi um advogado negro, vi pouquíssimos professores universitários, poucos colegas universitários, protagonistas de novelas, raríssimos. Sou negro por amargamente perceber que ainda existe muito preconceito, não só nas instituições, mas dentro de casa e nas piadas de roda de bar. Mas cabe exclusivamente a você, companheiro negro, aceitar isso ou não. Se identificar com essa opressão ou não. Ser negro é, portanto, uma questão de identidade.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ETIMOLOGIA DA BIOLOGIA!

Urrul.... Torando nas análises! Minha pergunta geradora é "Como a linguagem da Biologia é enunciada por professores e assimidada por alunos?" A etimologia, estudo das origens das palavras, sempre foi uma das formas de facilitar a assimilação dos termos técnicos da Biologia, apesar de não ser suficiente para a compreensão de funções e interrelações entre os conceitos. Mas é uma boa curiosidade. Por que cromossomo se chama cromossomo? E de onde veio Meiose e Mitose??

ETIMOLOGIA DA BIOLOGIA
Genética, Hereditariedade, Cromossomo, Transcrição, Tradução, Replicação, Mitose, Meiose, Cístron, Célula e Gametas.

1) GENÉTICA - Do grego GENETIKOS, “relativo à origem”, de GENESIS, “origem”, de GENOS, “raça, espécie”.

2) HEREDITARIEDADE - Do Latim HEREDITAS, “condição de estar apto a receber bens de um parente falecido”, de HERES, “herdeiro”. Naturtalmente, herança também vem daí.

3) CROMOSSOMO - Do Alemão CHROMOSOM, feita a partir do Grego KHROMA, “cor”, mais SOMA, “corpo”.

4) TRANSCRIÇÃO -  Do L. TRANSCRIBERE, “copiar em outro lugar”, de TRANS-, “além, através”, mais SCRIBERE, “escrever”.

5) TRADUÇÃO - Do L.TRADUCERE, “converter, mudar”, originalmente “transferir, guiar”, de TRANS- mais DUCERE, “guiar, conduzir”.

6) REPLICAÇÃO - Do L. REPLICARE, “responder, repetir”, literalmente “dobrar para trás”, de RE-, “de novo, para trás”, mais PLICARE, “dobrar”.

7) MITOSE - Do Grego MITOS, “fio de linha”.

8) MEIOSE - Do G. MEIOSIS, “diminuição”, de MEION, “menos”.

9) CIS TRANS - Do Latim CIS-, “aquém”, mais TRANS-, “além”.

10) CELULOSE- Essa palavra foi feita em 1835 pelo químico Anselme Payen, a partir de CELLULOSE, do Latim CELLULA, diminutivo de CELLA, “compartimento, peça de uma casa”, relacionado com o verbo CELARE, “esconder”.

11) CENOCÍTICO -Forrmação científica a partir do Grego KAINÓS, “novo, recente”, mais CYTÓS, “célula”.

AVE – começando pelo genérico, esta palavra vem do Latim avis, “ave, pássaro”, do Indo-Europeu awi-, idem.

PÁSSARO – do Latim passer, “pardal”. Depois a palavra se estendeu para abranger um grande número de aves.

SABIÁ – as aves que aqui matraqueiam não matraqueiam como lá… Este nome vem do nome usado para estas aves pelo Tupis, sawi’a.

CANÁRIO – chamam-se assim porque são nativos das Ilhas Canárias. Mas as ilhas não se chamam assim porque são o habitat deles, ao contrário do que se pensa.

Elas receberam esse nome (Canariae Insulae, em Latim) devido aos cães que os exploradores lá encontraram em grande quantidade ao chegarem e que eram chamados de canis.

PERIQUITO – este nome é espanhol, e deriva do estranho costume de os seres humanos colocarem os seus nomes próprios nos animais.

No caso, estas aves eram chamadas de perico, diminutivo de Pero, “Pedro”, que depois sofreu ainda mais um diminutivo em nosso idioma.

PAPAGAIO – do Provençal papagai, que veio do Árabe babaghá, o nome da ave.

CODORNIZ – do Latim coturnix. Aliás, os romanos gostavam muito de comer língua de codorniz preparada ao mel.

ANDORINHA – veio do Latim hirundo, que parece nada ter a ver com o nome atual, né? Mas a palavra passou a harundo, depois a andorine, que foi confundido com um diminutivo e deu em “andorinha”.

FALCÃO – do Latim falco. Esta palavra foi usada para designar também uma arma de fogo antiga.

GAVIÃO – talvez venha do Godo gabila, através do Espanhol gavilán.

Não fazer confusão com gavial, animal totalmente diferente; este é um crocodiliano do Rio Ganges, cujo nome deriva do Hindustani gharyal, “crocodilo”.

ÁGUIA – do Latim aquila, aparentemente o feminino de aquilus, “de cor escura”.

Os romanos tinham o adágio Aquila non captat muscas, “A águia não pega moscas”, para dizer que certos assuntos estão abaixo de dignidades elevadas.

CONDOR – do Espanhol cóndor, do Quíchua kúntur.

ABUTRE – veio do Latim vultur, possivelmente ligado ao verbo vellere, “romper, rasgar, despedaçar”, que é o que eles fazem com as presas em sua tarefa de limpar campos e matas.

URUBU – esta é do Tupi uru’wu.

CORVO – este nome é muitas vezes erroneamente usado para designar o urubu ou o abutre. Trata-se de aves extremamente inteligentes cujo nome vem do Latim corvus.
Em Roma, os ganchos que eram lançados contra navios inimigos para puxá-los de modo a se poder oferecer combate se denominavam corvus, pois eram comparados à garra dessa ave.

PELICANO – do Latim pelicanus, do Grego pelekan, talvez de pelekus, “machado”, pelo formato do bico.
Por muito tempo ele foi usado para representar o amor materno, dizendo-se que ele oferecia o seu peito para os filhotes se alimentarem do sangue do seu coração.

A verdade é mais prosaica; o que se via, na realidade, era os jovens retirando do bico inferior, elástico e de enorme capacidade, os peixes que o adulto tinha recolhido.

GAIVOTA – do Espanhol gaviota, que veio do Latim gavia.

AVESTRUZ – veio do Latim avis struthios, de avis mais struthios, “avestruz” propriamente dito, do seu nome grego, strouthion, da expressão strouthios megale, “pardal grande”.

Os gregos também o chamavam de strouthokamelos, “pardal-camelo”, devido ao seu pescoço longo.


FAGOCITOSE - G., PHAGEIN, “comer, devorar”, + KYTOS, “célula”.

NATUREZA vem do Latim natura, futuro do verbo nasci, “nascer”. Inicialmente, natureza significava “nascimento”; depois passou a significar a parte do mundo não dependente do Homem, mas também as qualidades e características inerentes a alguma coisa, inclusive o próprio Homem.

FÍBULA -  que antes era dita perônio, é o outro osso da perna, mais delgado. Vem do Grego fiboula, “broche, ponta”; aplicava-se às peças com ponta que eram usadas para manter vestimentas no lugar. Pelo formato, este osso recebeu o nome.
























11) Do G. GAMEIN, “casar”.