sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Valeu Ibitipoca

 E aí moçada!

Gente, final do ano passado tive a oportunidade de conhecer, junto com a minha namorada e família dela, o Parque Estadual de Ibitipoca, aqui em Minas Gerais!

Sabe aquele clima de montanha, muita água, cachoeira, paredões, frio e lareira? Ibitipoca tem isso tudo e um pouco mais. Foi a primeira Unidade de Conservação organizada e próxima de alcançar um modelo correto de conservação de espécies.

Pra chegar lá, saímos aqui de São João del Rei as 6 da manhã e fomos para Juíz de Fora, onde esperamos uma hora mais ou menos e depois fomos para uma cidadezinha chamada Lima Duarte. De Lima Duarte, partiríamos para uma vila que se chama Conceição do Ibitipoca (que é uma vila linda por sinal), mas o ônibus que faz esse percurso só vai duas vezes por dia, então tivemos que esperar um tempo em Lima Duarte. Aproveitamos para conhecer a biblioteca da cidade, as irmãs que se reencontrariam na viagem aproveitaram para fazer isso e também para fazer um pouco de música enquanto o tempo passava.

O ônibus chegou por volta de 16:00hs e partimos para uma viagem breve, cerca de uma hora subindo a montanha! Num dado momento passamos por uma vilazinha realmente mínuscula (tipo um bar beira de estrada e duas casas) e eu pensei que iríamos nos hospedar ali. Já estava no espírito "uhuu, viva a natureza totalmente selvagem", mas aí o ônibus seguiu a viagem e percebi que estávamos indo para um lugar um pouco melhor. Chegamos em Conceição do Ibitipoca. Uma vila, no alto da montanha, com casas bonitas, algumas lojas de produtos locais, pizzaria, restaurantes, padaria, supermercado e centro de visitantes. Alugamos uns chalézinhos, que nos deram bastante conforto durante os dias que estivemos por lá: lareira, cama boa, rede, vista pra montanha...

No dia seguinte conhecemos o Parque Estadual. O Parque cobra uma entrada de cinco reais, a visitação não exige presença de guia, as trilhas são auto guiadas e bem sinalizadas. O Parque tem uma portaria com centro de visitantes com loja e museu. O Museu é super bem estruturado, com maquete do parque, várias fotos e uma exposição com informações da fauna local. Existem dois roteiros básicos para se fazer dentro do Parque Estadual de Ibitipoca (como na Chapada dos Veadeiros) - o circuito das águas e o circuito da Janela do Céu. 

O primeiro roteiro que fizemos dentro do Parque, incluiu um circuito de mais ou menos 5 km com cachoeiras, muita água corrente e limpa, paredões animais (com direito inclusive a uma ponte de pedra, uma espécie de anel que o rio perfurou na rocha), prainhas e um cerrado de altitude cheio de plantas endêmicas. Vale a pena conhecer a cacheoira dos macacos, lago dos elfos e os demais atrativos desse roteiro.

O segundo roteiro é um pouco mais puxado, uma trilha com uns 7 km de ida e 7 de volta.  Mas compensa muito! A trilha da Janela do Céu oferece uma vista espetacular o tempo inteiro, com visão de 360 º, céu, terra com florestas e paredões e horizontes, tudo numa mesma trilha. Aí depois de caminhar, estudar plantas endêmicas, a gente passa por uma cachoeira "secreta", a cachoeirinha, linda, saída de um conto de fadas e vamos descendo pelo rio até chegar na maravilhosa janela! Um mirante para um abismo de 150 mts de altura. Estávamos em cima de uma cachoeira imensa, observando a paisagem lá em baixo através de uma fenda, ou "janela" na montanha.

O parque oferece ainda um passeio da Janela do Céu por baixo. É um passeio um pouco mais elaborado, os moradores alugam carros 4x4 para isso.

O Parque Estadual é administrado pelo IEF - o Instituto Estadual de Florestas, aqui de Minas Gerais. O Parque fecha nas segundas-feiras e nos finais de semana a entrada fica mais cara, sobe para quinze reais.  Eu achei tudo muito legal, muito organizado, limpo, a natureza está bem conservada lá. Mas parece que a região está num limite, entre área conservada e impactada (áreas que já não servem mais nem para preservação de espécies e nem para o ecoturismo). Conversamos com os moradores locais. Depois de ter ficado uns três dias sem ter acesso a nenhum caixa eletrônico ( e saí de lá sem ter) os moradores nos contaram que havia uma politicagem que envolvia o vilarejo de Conceição de Ibitipoca que fica abandonado, impedido de receber mais recursos como um banco ou escola por causa de más influências políticas. Outros dois pontos negativos são os seguintes: a capacidade de carga (para visitação do Parque), que está super mal elaborada. Vejam lá no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros que é uma Unidade de Conservação bem maior, considerado um hotspot (área de extrema importancia de conservação) suporta no máximo 300 pessoas por vez dentro do Parque Nacional. Ibitipoca também é uma região com ecossistemas extremamente delicados e que demandam conservação: observei várias espécies endêmicas e lá existe uma grande quantidade de anuros raros e muitas plantas bacanas. Mas os caras que administram o Parque, pelo que nos contaram, deixam 800 pessoas entrarem por vez dentro do Parque!! É um número absurdo, que com certeza causa impacto ambiental!

Saímos do Parque com a sensação de que estávamos numa espécie de limite. Pegamos o final do espírito legal e com natureza ainda conservada do local, pois pelo ritmo que está, com essa capacidade de carga da unidade de conservação estourada dessa maneira e com um lugar sem estrutura e querendo trabalhar com um turismo de massa (que geralmente causa os piores impactos ambientais), sentimos de fato que pegamos o final de um lugar bacana!

Mas mesmo assim foi ótimo! Vejam algumas fotos
























quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tio Bob Ricklefs e a minha cara de pau.

Em ecologia existe um pesquisador muito conceituado que é o norte americano Robert Ricklefs, autor do livro "A Economia da Natureza", um livro texto básico em Ecologia, muito bem feito e adotado por vários cursos de Biologia e Ecologia, no mundo todo. O Ricklefs é um dos maiores ecólogos do mundo e é um dos caras que mais produzem trabalhos científicos na área de Ecologia. Ele hoje é um professor phD da University of Missouri, mas sua origem é a cidade da Philadelphia. Além de escrever um dos livros mais bem feitos sobre Ecologia, Robert Ricklefs é uma sensação no meio acadêmico, qualquer site de pesquisa que em que procuro artigos em Ecologia, só dá o Ricklefs bombando, o cara produz muito. Os últimos trabalhos dele tem sido na área de ornitologia, o estudo dos pássaros. Ele já esteve aqui no Brasil, mais especificamente na UFMG. Tudo indica que ele tem um gostinho por nós brasileiros.

Em 2008, quando estava cursando na faculdade uma disciplina chamada Ecologia de Ecossistemas, a professora nos ensinou como trabalhar com artigos científicos e ensinou também maneiras de contactarmos e pedirmos orientações diretamente aos autores estrangeiros. Eu peguei um artigo sobre taxas de extinção (desaparecimento de uma espécie) e especiação (transformação de uma espécie em outra) em aves do grupo Passeriformes. Era um artigo bastante complexo pra ser sincero, com vários modelos matemáticos e discussões teóricas em cima de discussões teóricas! Pesado! Como eu teria que explicar aqueles modelos matemáticos  para a classe ( e não estava entendendo "lhufas" ), li o artigo umas seis vezes, traduzi partes importantes, e então aproveitei as dicas da professora e fui me meter a escrever diretamente para o Professor Ricklefs.

Ele é mais uma dessas autoridades científicas que gosto. Que são autoridades de verdade e nem por isso ficam humilhando alunos. Muito simpaticamente, apesar de ser um dos caras mais requisitados e ocupados no meio, o Bob Ricklefs em pessoa respondeu às minhas dúvidas. Foi uma coisa meio inusitada. Primeiro o pessoal não acreditou que fosse ele em pessoa me escrevendo, mas depois acreditaram e disseram  que foi meio cara de pau porque eu até convidei ele pra vir passear na minha casa.

Além de responder minhas dúvidas sobre o artigo com o qual eu estava trabalhando ( e fui até elogiado por isso, porque não perguntei qualquer bosta pro cara, meti as caras, esmiucei o trabalho dele e só então fui perguntar - talvez por isso ele tenha sido tão atencioso!), ele me deu umas dicas sobre Museus de História Natural nos EUA. Não sei se é coincidência ou se é um sinal como o da primeira Profecia da Profecia Celestina, mas o Museu que ele me indicou é vizinho da casa da minha madrinha que vive na Philadélphia!
(Se ele sabia que tenho essa madrinha morando lá? Não!)
  
Bom, troquei ainda mais alguns e-mails com ele, e estou só esperando sobrar um dinheiro para comprar o livro dele " A Economia da Natureza", que é um canône da Ecologia. Sei que na minha loucura, me empolguei e até o convidei para conhecer São João del Rei e depois fui repreendido, porque o cara poderia acreditar que a Universidade o estava convidando e a Universidade na verdade não tinha nada com isso.

Bem esse é o Robert Ricklefs, uma autoridade pra lá de simpática!

Mirmecocoria todo dia!

Então, é o último semestre em que vou fazer essa pesquisa. A realização é um pouco complicada e o tempo é curto. Desculpe-me caros leitores, mas esse assunto irá aparecer várias vezes aqui no Red Mosquito!

Encontrei um artigo que é bem específico para o que eu estou querendo fazer. É um teste da teoria da fuga do predador (maiores explicações vejam posts anteriores) ao longo de um gradiente geográfico maior (quer dizer uma área extensa, uma região). Esse teste foi feito em uma região de portugal e contemplou a interação mutualística das formigas com uma espécie arbustiva chamada Heleborus foetidus. Infelizmente, o teste foi feito numa espécie arbustiva. Como expliquei em outro post, praticamente ninguém no mundo fez esse teste para a interação mutualística que existe entre as formigas e as árvores tropicais. E é por isso que está sendo difícil, são poucas referências e metodologias nas quais se basear para fazer o experimento.

Mas esse artigo, de um autor chamado Manzaneda, me trouxe algumas informações bacanas. Eles isolaram algumas áreas e separaram cerca de vinte sementes em cada sítio (uma área determinada para se fazer um estudo). Em alguns sítios as formigas tinham acesso à semente, em outras não. (Ele fizeram meio que o contrário do que me propus a fazer. Eu pretendo isolar o acesso dos predadores às sementes, mas o Manzaneda e seus colaboradores isolaram a semente das formigas e permitiram que os predadores, no caso desse estudo da Península´Ibérica, tivessem acesso às 20 sementes previamente marcadas.).

O que esse artigo me trouxe de bacana foi o estudo e a observação do que acontece realmente com as sementes depois que elas são levadas pelas formigas. Os autores concluem que o destino das sementes passa por um processo que em Biologia chamamos de espécie-espécifico, ou seja, para cada espécie (seja de formiga ou espécie vegetal) a coisa funcionará de um modo diferente. No caso da espécie pesquisada nesse artigo, os autores quase refutaram a hipótese da fuga do predador, porque eles notaram que o fato das sementes serem levadas até o ninho das formigas não necessariamente evita a predação. O ninho das formigas, segundo os autores não é um local seguro para as sementes (Mas seria interessante investigar se isso se aplica a várias espécies mirmecocóricas ou apenas à espécie arbórea que os autores pesquisaram). O ninho não é seguro, porque em muitos casos se encontra dentro da zona de forrageamento dos roedores, ou seja, dentro daquela área na qual o roedor tem o hábito de procurar alimento. E uma vez dentro da área de forrageamento da espécie, um roedor no caso em questão, ele não vai ter o menor pudor de cavar, fuçar o ninho de formigas para catar uma deliciosa e nutritiva semente. Mas no estudo do Manzaneda, no qual a hipótese da fuga do predador foi testada em vários locais, em um dos locais o ninho foi considerado seguro, porque não se encontrava próximo da área de forrageamento de nenhuma outra espécie. Só que na natureza, numa comunidade estabelecida, saudável, no estágio que chamamos de clímax, existem várias espécies que convivem simultaneamente, portanto, é bem possível que na maior parte dos casos o ninho não seja um lugar muito seguro, apesar de que, em muitos casos, é um local com solo fértil que facilita a germinação da semente (e não me perguntem como que a formiga sabe disso!!!).

Por outro lado, Manzaneda e colaboradores, observaram também o comportamento que as formigas têm de enterrar algumas sementes e na maior parte dos casos investigados, esse comportamento foi útil para evitar os predadores.

Outra coisa que achei interessante e importante desse artigo: Os pesquisadores não encontram uma correlação direta entre a proporção de sementes que permaneciam nos sítios que eles armaram para fazer o teste e a densidade populacional dos roedores predadores estudados. Em outras palavras: se houvesse uma densidade populacional alta, com muitos roedores numa área não muito extensa, isso não significaria, necessariamente, que haveria uma quantidade maior de sementes predadas!!

Conclusão? Mistério, mistério e mais mistério!!! São várias evidências a favor e várias contra a veracidade da hipótese!

Até a próxima!


FONTE: MANZANEDA A. J. FEDRIANI J. M. , REY P. J. - Adaptative advantages of myrmecochory: the predator-avoidance hypothesis tested over a wide geographic range.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Novamente no buraco da formiga

Oi Galera!

Bem, e já se foram sete anos da minha vida nessa luta acadêmica. Esse mês tive que pedir uma extrapolação do prazo máximo de integralização (vergonha!), mas é que como mudei de faculdade foi como se tivesse começado de novo. Estou quase quase terminando, mas uma das coisas que ainda me amarra é a pesquisa com a mirmecocoria. Lembram da relação harmônica (simbiótica) entre as formigas e diversas espécies de plantas?

Pois é. Agora é pra valer. Já identifiquei as espécies de formiga e de planta com que vou trabalhar e agora não tem mais volta. Tenho que fazer um experimento que comprove ou refute uma hipótese da Ecologia de Interações, mais especificamente da interação conhecida como Mirmecocoria. Essa hipótese é chamada de Hipótese da Fuga do Predador, uma hipótese que diz que o fato da formiga carregar a semente, protege a semente, garante a germinação e reduz a pressão de predação.

Bem, particularmente, eu acho que a hipótese é verdadeira. Se levarmos em consideração que as sementes quando estão exatamente embaixo das árvores parentais não se desenvolvem (deixam de se desenvolver porque a competição intra e interespecífica é bem maior nesse local - podem haver compostos secundários, que são substâncias tóxicas utilizadas como defesa em várias espécies vegetais - que impedem o desenvolvimento das sementes), o pé de uma árvore cheio de sementes é um prato, literalmente, cheio para os predadores (besouros, pássaros e roedores, basicamente). Se as formigas fazem o trabalho de retirar a semente desse ambiente, a levando para um local mais propício, tudo leva a crer que isso reduz a pressão de predação!

Alguns pesquisadores testaram essa hipótese, com ervas e arbustos, e chegaram a mesma conclusão que eu. Mas acontece que ninguém no mundo fez esse teste para as árvores tropicais que se relacionam com as formigas! E o abelhudo aqui tá se metendo a fazer isso!

A espécie vegetal com que estamos trabalhando é uma árvore, da célebre família da Euphorbiáceas. Uma árvore bastante comum identificada até agora apenas como Croton sp . Voltei de férias na semana passada e conheci uns lugares bem bacanas - Ibitipoca, o primeiro parque em Minas Gerais que ganhou quase todo meu respeito de aspirante a ecólogo (depois monto um post para explicar porque "quase" ganhou meu respeito), Três Lagoas no Mato Grosso do Sul, onde mora minha filhinha e São Paulo, onde fui comprar algumas coisinhas e rever amigos. Estou comentando aqui sobre o itinerário das minhas férias porque ao longo de todo o caminho a Croton sp me acompanhou. Durante esses meses em que a observei (final de dezembro, janeiro e começo de fevereiro), a Croton apareceu muito por toda a estrada e também dentro do parque estadual do Ibitipoca. È tempo de floração dessa espécie, cujas flores se organizam em pequenas inflorescências, que parecem espigas (não me lembro mais qual o termo técnico correto pra esse tipo de inflorescência). E daqui a alguns meses as sementes estarão formadas e começarão a cair: um verdadeiro prato cheio, pra mim, para as formigas e para os predadores! Em Juíz de Fora, MG e também na cidade de Lima Duarte, observei uma ocorrência extremamente alta da Croton sp. Haviam verdadeiros corredores dessa espécie, que por estar no ápice da floração, mostrou uma exuberância formidável!  Ter observado esses corredores, me deixou com uma convicção ainda maior de que a Hipotése da Fuga do Predador é verdadeira. Pensem comigo: Se haviam tantas espécies numa área tão extensa (estive em três estados brasileiros dentro desses três meses), significa que as formigas estão tendo sucesso na sua tarefa de dispersar as sementes. Senão ela não seria tão comum! Mas claro, isso pode ser só uma coincidência!

Ainda não identificamos a espécie exata de formiga com que vou ter que trabalhar (the very specie!), mas as espécies mais comuns que fazem esse tipo de dispersão aqui no Brasil são a Atta sp e a Pheidole sp. Creio que eu vá trabalhar com uma dessas duas!

Agora o problema: esse teste consiste basicamente em contar um número igual de sementes em duas áreas, uma na qual os predadores tenham acesso às sementes e outra na qual somente as formigas tenham acesso, e depois recontar as sementes que sobraram e tentar descobrir o destino de algumas, para ver se de fato foram protegidas da predação.  Mas como isolar essas áreas?



Um dos artigos que li, relatou uma experiencia feita com uma gaiola. As sementes ficavam dentro de uma gaiola e foi dessa maneira que os predadores ficaram sem acesso às sementes. Mas esse teste considerava os predadores vertebrados, os pássaros. Para besouros uma gaiola seria muito grande, mas uma amiga minha me sugeriu a utilização de um tecido chamado Tule, que é uma trama bem fina, por onde passariam as formigas mas não os besouros. Adorei a idéia, mas aí veio mais uma dúvida: como as sementes, que são bem maiores que as formigas irão passar pelo tule? Ainda não sei exatamente como vai ser, mas pensei em pendurar a gaiola e deixar uma pequena parte entreaberta de modo que as formigas possam sair carregando a semente.

Bom, agora é continuar lendo, pesquisando, e assim que as sementes começarem a cair lá estarei eu com uma gaiola um tule, um esmalte (pra marcar as sementes e não perder as referencias)!!!

Valeu!