segunda-feira, 14 de maio de 2012

ENTOMOLOGIA AS AVESSAS

Tive um sonho estranho essa noite. Sonhei que o mundo inteiro tinha mudado. A civilização humana já não mais existia. Nada de carros, nada de cidade, universidade, comércio, trânsito. Nada de nada. Apenas as coisas como eram no início. Florestas. Montanhas. Oceanos.

Eu estava nú, mas não sentia frio. De repente notei que a população humana não tinha sido devastada, apenas havia passado por uma mudança. Radical. As pessoas eram em número muito maior, e se aglomeravam a minha frente, todas nuas e com sinais de maus tratos. Magras, sujas, assustadas...

Minha barriga reclamou por comida e foi quando me dei conta de que nesse lugar não tinha nenhuma. Tentei me desvencilhar da multidão, mas estava num lugar meio apertado, uma espécie de clareira, eu não via saída. E foi então que aconteceu... Uma estrutura gigantesca de um material parecido com plástico veio rápido do céu e me prendeu numa espécie de cilindro gigante. Aliás é plástico mesmo.  Junto com mais seis ou sete humanos, comecei a sentir toda essa estrutura tremer. Olhei para o céu, mas não havia mais céu, apenas algo que parecia uma enorme tampa. Todos gritaram quando o cilindro gigante se moveu e pareceu deixar o solo. O movimento foi brusco e caí de lado. Apoiado na parede lateral da minha nova prisão, tentei olhar o exterior mas tudo que conseguia enxergar era um imenso desenho letras garrafais: MIRIAPODES INSTANTANEOS. Miríapodes instantaneos? Quem será que fabricou essa bizarrice?

Foi então que o cilindro gigante sacudiu novamente e em meio aos gritos dos outros humanos pude divisar um pouco do mundo lá fora. Mas não, não pude acreditar.  Me equilibrando como podia, corri para a outra parede do cilindro gigante onde não havia anúncio e eu poderia enxergar melhor. Mas mesmo enxergando melhor não quis acreditar: Coleópteros e Hexápodes gigantescos carregavam o cilindro gigante e se eu não estivesse numa situação tão ensandecida, diria que vi sorrisos nas probóscides e um brilho maroto nos olhos múltiplos.

Chegamos em algum lugar, pois a estrutura cilindríca gigante parou de sacudir. Durante o trajeto eu escutava apenas zumbidos, mas de repente esses zumbidos começaram a fazer sentido e pude entender o que falavam:

- Muito bem, Louva-Deus, conseguimos alguns espécimes para nossa coleção!
- Também acho ótimo Besouro, mas esse nosso professor de Humanologia é exigente, sabe disso né?
- Claro.
- Fico com pena dos bichinhos, acho que devíamos matá-los de uma vez!

Humanologia? Matá-los?! Caralho, que papo é esse?, pensei. Imediatamente me acuei em um canto e reservei todas as energias para a fuga, assim que aquela tampa gigante se abrisse. Continuei ouvindo as vozes lá fora:

- Dizem que humanos ficam mais bonitos quando espetados em todas as vertébras e com os membros bem esticadinhos!
- Eu sei, vim à aula. Mas olha, Louva-Deus, vamos ser bem rápidos, porque se dermos tempo pra eles agonizarem, nossa coleção vai ficar péssima. E olha que a Joaninha e a turma dela já tem uma coleção de humanos completinha!!! Não vamos perder essa né?
- Não mesmo.

Nesse instante senti que o cilindro gigante iria se abrir. Eu estava num canto, perto da tampa e assim que senti a abertura pulei de canto e comecei a correr com todas as forças... quando uma PERNA gigante me apanhou!!

- Ah, Besouro, olha como esse espécime é bonitinho. Por pouco não o perdemos.

Comecei a me debater. Queria chorar, mas não dava pois os pelos tácteis da perna do Louva Deus me faziam cócegas! Enquanto me debatia, pude ver que os outros dois coleópteros gigantes retiravam as outras pessoas de dentro do cilindro. Eles haviam nos levado para uma rocha tabular muito grande e ali haviam inúmeros alfinetes gigantescos!!

- Olha Louva-Deus vou te mostrar como se espeta humano! - Nesse momento o gigantesco besouro pegou um alfinete gigante e cravou, com ajuda de um martelo, nas costas de uma bela moça que se debatia. A moça morreu na hora e um jato de sangue imenso jorrou.
- Arrrghh que nojo desse sangue humano. Rápido, me passem os outros alfinetes, preciso terminar de espetá-la e manter as pernas bem abertas! Esse sangue depois a gente limpa. Ah, e esse espécime aí na sua mãe Louva-Deus? Passa ele pra cá, que ele tá bem gordinho e vai ficar lindo na nossa caixa!!
- Claro!

O Louva-Deus me passou para as mãos do Besouro, bem mais ásperas. Angustiado, olhei ele pegar o alfinete gigante e o martelo. Ele me virou e me deitou de costas, mas pude ouvir o ranger do alfinete se aproximando quando...

Acordei todo suado, gritando.

- Nããããão!!!!! - Olhei ao meu redor e percebi que as coisas haviam voltado ao normal. Estava no meu quarto, com minhas coisas minha cama quentinha e nenhum inseto, nem gigante e nem normal me perturbavam. Olhei no relógio. - Meeerda!!!! To atrasado pra aula de Entomologia! Ainda bem que tenho um monte de insetos dentro de um pote prontinhos pra serem espetados!!!