sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O QUE É SER NEGRO?


   Reelaborando uma resposta a uma pergunta que me foi feita ontem a noite no bar-sala-de-aula Vagão Leite de Castro, resposta cujo grau etílico em que eu me encontrava não permitiu uma resposta digna no momento. Agora vai aí a resposta:
    Na minha humilde e embasada opinião, negro, é uma etnia (pois já se diferenciaram enquanto populações onde todos indivíduos compartilhavam essa cor de pele e uma certa cultura, ligada às origens africanas) e não é uma raça (esse conceito é construído sócio-historicamente, fundamentado em falsas ideias evolucionistas para se justificar. Em Biologia, a cor da pele é somente uma variação fenotípica, dentro de uma mesma espécie. Absolutamente não há raças humanas diferentes, não há "melhor" ou "pior". Há variações fenotípicas, dando uma pincelada na genética de populações: variação necessária, dentro de uma mesma população para manter a integridade do conjunto genômico da espécie. Em outras palavras: essas variações são necessárias para garantir a perpetuidade e integridade de uma população. Se todas as expressões fenotípicas fossem iguais, um parasita, por exemplo, poderia extinguir a espécie em poucas gerações. Portanto, galera, a pluralidade de expressões fenotípicas - negros, brancos, orientais, miscigenados, etc..- é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie. Assim, agora que sabemos que o conceito de raça é mais histórico/social/ideológico/cultural do que biológico, me arrisco a dizer que ser negro é uma questão de identidade. Uma questão de com o que e com quem e qual cultura você se identifica. Acontece que não sempre que existiu o conhecimento de que negro é só uma variação fenotípica da mesma espécie. No passado, esse grupo social foi violentamente explorado por outro grupo que se achava superior, os brancos.  Os negros foram escravizados, objetificados, vistos sempre como "exóticos", dede a época dos circos medievais que expunham negros como aberrações até o concurso da Globeleza 2014, que reafirma o estereótipo de que o lugar da mulher negra bonita é no máximo sambando semi-nua e papagaiada no carnaval. E não reclama não! Olha que glamour! Não me venha com seu drama, esse tal preconceito não existe! 
     
       Querido Bourdieu e seu conceito de violência simbólica, que mudou radicalmente minha visão de mundo. Os negros, desde a época das navegações, vêm sofrendo a imposição da cultura branca, "melhor", "mais limpa", "mais rica", " mais alva", "mais santa". Negro? Negro é "escuro", "ruim", "bandido", "pobre", "burro", "feio"... De tanto ouvirem essas falsas noções de inferioridade e superioridade, muitos negros acabaram introjetando essas noções preconceituosas e acabam por aceitar o branco como superior e melhor.
      Num país miscigenado e colonizado como o Brasil, essas noções ficam um pouco mais difusas e confusas. Como o negro sofre violência simbólica do branco desde sempre, existe uma grande naturalização do preconceito, uma grande naturalização inconsciente e que parte tanto de negros quanto de brancos dessa ideia de que o branco é melhor e o preto é pior. O "moreno", "mulato", "café-com-leite" brasileiro, sob essa perspectiva, está numa situação fragilizada. Muitos não sabem qual é a sua identidade: sofrem violência simbólica (numa análise bastante otimista, pois boa parte da população negra está é sendo sangrentamente exterminada mesmo) desde a fundação do país, então acabam orientando sua identificação no sentido de uma branquificação. A cantora de funk Anitta é o exemplo clássico dessa identidade negra em conflito e que tende a colocar o branco como superior: a medida que a cantora foi ficando mais famosa, foi mudando seu jeito de se vestir, se maquiar e arrumar o cabelo, ficando cada vez mais semelhante a uma mulher branca. Agora ela é rica e isso só pode ser coisa de branco né gente?? Esse "moreno-claro", que prefere se reconhecer como branco, que tem vergonha de sua origem negra e aceita ser branquificado (o que acontece através de jargões preconceituosos difusos, que a própria pessoa oprimida reproduz, ou que são naturalizados nas piadas e programas de TV, e vão de comentários que pregam uma falsa igualdade como o "vocês não tem que ter privilégios, somos todos iguais...", " você já tem seu lugar, olha o carnaval e o futebol..." " e esse cabelo ruim aí, posso pegar?" até o horripilante "cor de merdinha" que tive que escutar ontem a noite.) sem dúvidas é um sujeito que não tem consciência da violência simbólica histórica que sofre. Sem dúvida em um momento ou outro acaba acreditando nessa falácia de que o branco é melhor. 
      "Sou moreno-claro". Já conheci algumas pessoas que se apresentam assim, quase como se dissessem "não sou tão negro ó, sou quase branco...".  Eu sou meio sem vergonha, pois minha condição genética não permite que eu me aproprie dessa identidade, já que minhas origens são portuguesas e indígenas, mas apesar disso eu transgrido as convenções e bato no peito pra falar: Eu sou negro! Sou negro e não mulato, não cafuso, não moreno-claro e nunca, mas nunca mesmo, cor-de-merdinha.... Mesmo sendo fenotipicamente branco e índio, sou negro por reconhecer o quanto esse grupo social foi oprimido. Por reconhecer o quanto sua riqueza cultural e sua força de trabalho construíram esse país. Sou negro porque nunca fui atendido por um médico negro, nunca vi um advogado negro, vi pouquíssimos professores universitários, poucos colegas universitários, protagonistas de novelas, raríssimos. Sou negro por amargamente perceber que ainda existe muito preconceito, não só nas instituições, mas dentro de casa e nas piadas de roda de bar. Mas cabe exclusivamente a você, companheiro negro, aceitar isso ou não. Se identificar com essa opressão ou não. Ser negro é, portanto, uma questão de identidade.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ETIMOLOGIA DA BIOLOGIA!

Urrul.... Torando nas análises! Minha pergunta geradora é "Como a linguagem da Biologia é enunciada por professores e assimidada por alunos?" A etimologia, estudo das origens das palavras, sempre foi uma das formas de facilitar a assimilação dos termos técnicos da Biologia, apesar de não ser suficiente para a compreensão de funções e interrelações entre os conceitos. Mas é uma boa curiosidade. Por que cromossomo se chama cromossomo? E de onde veio Meiose e Mitose??

ETIMOLOGIA DA BIOLOGIA
Genética, Hereditariedade, Cromossomo, Transcrição, Tradução, Replicação, Mitose, Meiose, Cístron, Célula e Gametas.

1) GENÉTICA - Do grego GENETIKOS, “relativo à origem”, de GENESIS, “origem”, de GENOS, “raça, espécie”.

2) HEREDITARIEDADE - Do Latim HEREDITAS, “condição de estar apto a receber bens de um parente falecido”, de HERES, “herdeiro”. Naturtalmente, herança também vem daí.

3) CROMOSSOMO - Do Alemão CHROMOSOM, feita a partir do Grego KHROMA, “cor”, mais SOMA, “corpo”.

4) TRANSCRIÇÃO -  Do L. TRANSCRIBERE, “copiar em outro lugar”, de TRANS-, “além, através”, mais SCRIBERE, “escrever”.

5) TRADUÇÃO - Do L.TRADUCERE, “converter, mudar”, originalmente “transferir, guiar”, de TRANS- mais DUCERE, “guiar, conduzir”.

6) REPLICAÇÃO - Do L. REPLICARE, “responder, repetir”, literalmente “dobrar para trás”, de RE-, “de novo, para trás”, mais PLICARE, “dobrar”.

7) MITOSE - Do Grego MITOS, “fio de linha”.

8) MEIOSE - Do G. MEIOSIS, “diminuição”, de MEION, “menos”.

9) CIS TRANS - Do Latim CIS-, “aquém”, mais TRANS-, “além”.

10) CELULOSE- Essa palavra foi feita em 1835 pelo químico Anselme Payen, a partir de CELLULOSE, do Latim CELLULA, diminutivo de CELLA, “compartimento, peça de uma casa”, relacionado com o verbo CELARE, “esconder”.

11) CENOCÍTICO -Forrmação científica a partir do Grego KAINÓS, “novo, recente”, mais CYTÓS, “célula”.

AVE – começando pelo genérico, esta palavra vem do Latim avis, “ave, pássaro”, do Indo-Europeu awi-, idem.

PÁSSARO – do Latim passer, “pardal”. Depois a palavra se estendeu para abranger um grande número de aves.

SABIÁ – as aves que aqui matraqueiam não matraqueiam como lá… Este nome vem do nome usado para estas aves pelo Tupis, sawi’a.

CANÁRIO – chamam-se assim porque são nativos das Ilhas Canárias. Mas as ilhas não se chamam assim porque são o habitat deles, ao contrário do que se pensa.

Elas receberam esse nome (Canariae Insulae, em Latim) devido aos cães que os exploradores lá encontraram em grande quantidade ao chegarem e que eram chamados de canis.

PERIQUITO – este nome é espanhol, e deriva do estranho costume de os seres humanos colocarem os seus nomes próprios nos animais.

No caso, estas aves eram chamadas de perico, diminutivo de Pero, “Pedro”, que depois sofreu ainda mais um diminutivo em nosso idioma.

PAPAGAIO – do Provençal papagai, que veio do Árabe babaghá, o nome da ave.

CODORNIZ – do Latim coturnix. Aliás, os romanos gostavam muito de comer língua de codorniz preparada ao mel.

ANDORINHA – veio do Latim hirundo, que parece nada ter a ver com o nome atual, né? Mas a palavra passou a harundo, depois a andorine, que foi confundido com um diminutivo e deu em “andorinha”.

FALCÃO – do Latim falco. Esta palavra foi usada para designar também uma arma de fogo antiga.

GAVIÃO – talvez venha do Godo gabila, através do Espanhol gavilán.

Não fazer confusão com gavial, animal totalmente diferente; este é um crocodiliano do Rio Ganges, cujo nome deriva do Hindustani gharyal, “crocodilo”.

ÁGUIA – do Latim aquila, aparentemente o feminino de aquilus, “de cor escura”.

Os romanos tinham o adágio Aquila non captat muscas, “A águia não pega moscas”, para dizer que certos assuntos estão abaixo de dignidades elevadas.

CONDOR – do Espanhol cóndor, do Quíchua kúntur.

ABUTRE – veio do Latim vultur, possivelmente ligado ao verbo vellere, “romper, rasgar, despedaçar”, que é o que eles fazem com as presas em sua tarefa de limpar campos e matas.

URUBU – esta é do Tupi uru’wu.

CORVO – este nome é muitas vezes erroneamente usado para designar o urubu ou o abutre. Trata-se de aves extremamente inteligentes cujo nome vem do Latim corvus.
Em Roma, os ganchos que eram lançados contra navios inimigos para puxá-los de modo a se poder oferecer combate se denominavam corvus, pois eram comparados à garra dessa ave.

PELICANO – do Latim pelicanus, do Grego pelekan, talvez de pelekus, “machado”, pelo formato do bico.
Por muito tempo ele foi usado para representar o amor materno, dizendo-se que ele oferecia o seu peito para os filhotes se alimentarem do sangue do seu coração.

A verdade é mais prosaica; o que se via, na realidade, era os jovens retirando do bico inferior, elástico e de enorme capacidade, os peixes que o adulto tinha recolhido.

GAIVOTA – do Espanhol gaviota, que veio do Latim gavia.

AVESTRUZ – veio do Latim avis struthios, de avis mais struthios, “avestruz” propriamente dito, do seu nome grego, strouthion, da expressão strouthios megale, “pardal grande”.

Os gregos também o chamavam de strouthokamelos, “pardal-camelo”, devido ao seu pescoço longo.


FAGOCITOSE - G., PHAGEIN, “comer, devorar”, + KYTOS, “célula”.

NATUREZA vem do Latim natura, futuro do verbo nasci, “nascer”. Inicialmente, natureza significava “nascimento”; depois passou a significar a parte do mundo não dependente do Homem, mas também as qualidades e características inerentes a alguma coisa, inclusive o próprio Homem.

FÍBULA -  que antes era dita perônio, é o outro osso da perna, mais delgado. Vem do Grego fiboula, “broche, ponta”; aplicava-se às peças com ponta que eram usadas para manter vestimentas no lugar. Pelo formato, este osso recebeu o nome.
























11) Do G. GAMEIN, “casar”.

terça-feira, 19 de março de 2013

Os roteiristas dos X-men estavam certos?

       Os X-men, personagens fictícios da Editora norte-americana Marvel, são um grupo de super-heróis, criados por Stan Lee em 1963 e que geram excelentes debates em Biologia. Esses quadrinhos e/ou filmes e desenhos da franquia, são interessantes para se trabalhar em aulas de Bio porque seus protagonistas são mutantes,  seres geneticamente modificados que desenvolvem poderes. Esse é um dos pontos que podem ser tornados como ferramenta didática da Bio, afinal o que é um mutante? Qual a importância da mutação para a Evolução das Espécies? Por quais mecanismos ela ocorre? Outro ponto bacana da franquia que pode ser trabalhado em sala de aula (aliás é o que sempre alimentou minha paixão, desde criancinha, por esses personagens) é que eles são párias da sociedade. Os personagens são odiados, perseguidos e temidos simplesmente por serem pessoas diferentes. Qualquer semelhança com nossa realidade excludente seria mera coincidência? A partir de qualquer história onde os mutantes são perseguidos, pode-se iniciar um excelente debate sobre a existência ou não de raças e sobre a conceituação de espécies e se essa diferenciação de raças se aplica à espécie humana. Os negros, no passado, assim como os homossexuais (em algumas análises bizarras), foram e são tratados como os mutantes, sendo perseguidos, oprimidos, excluídos, simplesmente por serem diferentes do que foi convencionado  como "normal". 

         Evolução é um tema recorrente na história. Isso pode ser trabalhado em aula, partindo do ponto da mutação e também com algumas histórias especiais da franquia que mostra a Evolução da Espécies (Com alguns erros conceituais, mas que podem ser corrigidos por uma intervenção correta.)(X-men: E de Extinção). Na história, os humanos temem os mutantes, porque o "Homo sapiens superior" é mais forte e supostamente tem potencial para exterminar o Homo sapiens, mas o Professor Charles Xavier, com todo seu arsenal de poderes e princípios morais, sonha em unir as duas espécies e treina algumas pessoas para perpetuarem seu sonho de paz. Mas aí surge o Magneto, arquiinimigo dos X-men e um vilão que é um excelente contraponto que fomenta a discussão. Mutante e traumatizado pelo holocausto nazista, Magneto quer mais é que o Homo sapiens deixe de existir, porque segundo ele os superiores devem reinar. Assim, ele treina sua Irmandade de Mutantes, para guerrearem contra a humanidade, sob o pretexto de que os mutantes são o próximo estágio da humanidade e que deverão exterminar o Homo sapiens assim como o Homo sapiens exterminou o Homo neanderthalis.
         Opa, mas para tudo agora!
         Pause.
         Tempo pra reflexão...
         O Homo sapiens realmente exterminou o H. neandertalensis?
       Fui buscar uma resposta para essa pergunta e encontrei um universo de informações, que vou tentar resumir. 
         Bem, primeiramente, posso dizer que a ideia antiga, inclusive difundida pelo Magneto, de que a Evolução Humana, ou das Espécies, foi um processo linear, onde existe um organismo inferior e um superior, bem, isso caiu por terra. Não há uma linha reta, onde uma espécie sucede a outra. Há, na verdade uma árvore, com vários grupos se interrelacionando e as espécies nas pontas. Alguns autores dizem que a Evolução Humana teve tantas descobertas nas últimas décadas que é mais uma moita do que uma árvore. O que existia, há cerca de 3 milhões de anos, quando surgiu o primeiro H. sapiens era uma uma gaaaalera (uma diversidade com aproximadas 20 espécies)  de hominídeos, alguns convivendo entre si, outros ocupando diferentes hábitats. Existiram várias espécies hominídeas que conviveram entre si e o ancestral direto do H.sapiens é incerta, sabe-se apenas que é alguma espécie aparentada com os australopithecus, gênero de nossa querida Lucy (A.afarensis). Muitos hominídeos se extinguiram por causas naturais: isolamentos geográficos, geleiras ou desgelo abrupto, aquecimentos globais ou escassez de alimentos. Mas, sim, H. sapiens e H.neandhertalis se encontraram em algum momento da história evolutiva da humanidade e esse encontro se deu lá na Palestina, segundo Walter Neves, antropólogo da USP. "Esse furdúncio que existe hoje na Palestina, já existia há 100 mil anos."
          Costumam (como fruto de um pensamento antropocêntrico que perdura até hoje) uma tendência a dizer que a inteligência surge em H. sapiens, mas nessa época dos primórdios, quando as duas espécies conviveram, o arsenal tecnólogico das duas espécies era exatamente o mesmo. Suas ferramentas eram praticamente idênticas e cada espécie demarcava um território: H.sapiens na Asia e H.neandhertalis na África. E ai de quem pisasse no território do outro!
            Mas foi então, que a 50 mil anos, o H.sapiens passou por uma mutação e teve um "clique" no cérebro que passou a permitir que ele imaginasse um mundo além do mundo real. É aí que surgem as representações simbólicas (a realidade não era mais apenas o que é imediatamente concreto e palpável, ela podia ser representada, o campo podia ser representado em uma caverna), e dá-se o nascimento da linguagem! (Putz, fator que favoreceu a extinção da outra espécie.)
               O H.sapiens então percebe que seu arsenal tecnógico também podia se expandir em suas formas e representações e assim começa a desenvolver a cultura, com utensílios utilitários, novas lanças, novas armas... A arte só surge 40 mil anos atrás, com esse estalar do H. sapiens primitivo. 
               Se por um lado alguns pesquisadores acreditam que houve uma mutação no cérebro humano que permitiu as inovações tecnológicas da idade da pedra, por outro, existem cientistas que não acreditam nessa teoria. Acreditam que sempre existiu um potencial para a cultura na espécie e que esse potencial é despertado quando a situação aperta, nesse caso, com mudanças climáticas graves que forçaram o homem a mudar de vida. 
              Agora, com arsenal renovado e depois de terem conquistado novas partes do mundo, como o Sudeste Asiático e a Austrália, o H.sapiens estava pronto para enfrentar o H. neandhertalis que reinava no norte da Europa. 
                  O H. sapiens de fato foi dominando território, desenvolvendo armas mais eficientes, e aos poucos foram substituindo os H. neandhertalis.  Mas há muita controvérsia quando pesquisamos sobre o assunto. Alguns pesquisadores dizem que havia muita semelhança entre as duas espécies, que chegaram a trocar hábitos culturais (como o artesanato) e a transarem uma espécie com a outra! Os neandertais eram mais adaptados ao frio, tinham ossos mais fortes e transpiravam menos, mas os sapiens tinham armas melhores, eram mais eficientes na hora de caçar. Nunca encontraram sinais de um conflito direto, nenhum fóssil de neandertal com alguma fratura com marcas de armas dos sapiens. Isso nunca encontraram. Mas pela inteligencia ao utilizar ferramentas para sobreviver a população Sapiens foi se instalando, tomando espaço e gradativamente substituindo a outra. Pelo que entendi foi a competição inter-específica que fez com que uma espécie substituisse e eliminasse a outra. Mas não era uma competição como entedemos hoje nesse nosso mundo, com armas, guerras, genocídios... Foi simplesmente uma melhor adaptabilidade de uma espécie enquanto a natureza se ocupou em eliminar a outra.
                  Conclusão: Magneto estava errado! 
                  Portanto crianças, sigam o sonho do Professor Xavier.



ABAIXO UM POUCO DA ARTE DOS PRIMEIROS H. sapiens.
(São felinos lindos.)





Fontes: Artigos das revistas Superinteressante e Scientific American e sites diversos.









sexta-feira, 15 de março de 2013

Da série Círculo do Bakhtin: Capítulo I Maria Yudina

Bem, estou fazendo alguns estudos pro Mestrado em Educação. Com as leituras, algumas práticas e troca de ideias com amigos e colegas estou definindo o que quero pesquisar e como vou fazer isso. Quero pesquisar metodologias alternativas que busquem sanar as falhas referentes à linguagem no Ensino de Biologia. No Ensino de Biologia temos alguns problemas que são referentes à linguagem. Em aula são dados muitos termos técnicos de uma só vez e isso dificulta a assimilação do estudante. São muitas palavras novas e estranhas pra se decorar, então pra pesquisar e executar propostas que visem sanar essa deficiência do ensino de Bio, estou estudando a fundo a Teoria do Dialogismo, e sendo assim eu não teria outra escapatória a não ser estudar o pais do Dialogismo: Mikhail Bakhtin. Bakhtin foi um filólogo e historiador que viveu na Rússia nos anos 20 e desenvolveu uma teoria ampla e complexa sobre dialogismo e filosofia da linguagem. Bakhtin e sua teoria do dialogismo eram notáveis, e a teoria sobre dialogismo foi construída exatamente sobre bases dialógicas, dentro de um grupo de intelectuais do começo do século passado que ficou conhecido como Círculo de Bakhtin.
  Em homenagem às mulheres, para a primeira pesquisa bibliográfica sobre os membros do círculo traduzi um texto muito bacana que encontrei sobre uma notória pianista que fez parte do primeiro círculo de Bakhtin: Maria Yudina. Enjoy it!


"A escada da Beatitude" de Jim Forest.

Uma das pessoas dos tempos modernos cujo coração era radiantemente puro foi a pianista russa Maria Yudina. Vim a conhecê-la indiretamente através das memórias de seu amigo e ex-colega de classe, o compositor Dimitri Shostakovich, e também através de Tatiana Voogd, uma membro de nossa paróquia que conheceu Yudina pessoalmente, e dormia sob o piano dela - "o lugar mais protegido no apartamento dela", ela me disse.
      Foi o destino de Maria Yudina viver na Revolução Russa e durante o seu resultado, vendo muitos de seus amigos e colegas mais queridos desaparecerem no Gulag. (Uma agencia governamental russa que administrava os trabalhos de campo forçado que os "subversivos" tinham que fazer durante o governo Stalin) Uma cristã destemida, ela carregava uma cruz bem visível, mesmo quando estava ensinando ou se apresentando em público - uma afirmação de crença em um tempo onde a exibição de fé religiosa poderia custar o trabalho de alguém, sua liberdade ou mesmo sua vida. Ela viveu uma vida ascética, sem utilizar cosméticos, gastando pouco com ela mesma e se vestindo simplesmente. "Eu tinha a impressão que Yudina vestia o mesmo vestido preto durante toda sua longa vida, era tão usado e sujo", dizia Shostakovich.

Para Maria Yudina, a música era uma forma de proclamar sua fé em um período onde publicações eram mais cuidadosamente policiadas do que pianos. "Yudina via a música com uma luz mística. Por exemplo, ela via as Goldberg Variations de Bach como uma série de ilustrações da Bíblia Sagrada." disse Shostakovich. " Ela sempre tocava como se estivesse dando um sermão"

Ela não somente performava com o piano, mas parava durante os concerto para ler a poesia de escritores como Boris Pasternak, que não podia ser publicado naquele tempo.

Ela era notória dentre os amigos por sua inabilidade de manter qualquer coisa de valor somente para ela mesma. "Ela veio me ver uma vez" Shotakovich lembrou, " e disse que estava vivendo em um quarto miserável, onde ela não podia nem trabalhar nem dormir. Então assinei uma petição, fui ver vários burocratas, pedi ajuda a uma porção de pessoas, tomei o tempo de algumas pessoas. Com muita dificuldade conseguimos um apartamento para Yudina. Você pensaria que tudo estava bem e que a vida podia assim continuar. Um curto tempo depois ela chegou em mim de novo e pediu ajuda para obter um apartamento para ela. O que? Mas nós conseguimos um apartamento para você! Por que você precisa de outro? " Eu dei o apartamento para uma mulher velha e pobre."!
Shostakovich ouviu falar que amigos tinham feito um empréstimo a Yudina de cinco rublos. " Eu quebrei uma janela no meu quarto, está tão frio, não posso viver assim" ela os tinha dito. "Naturalmente eles deram o dinheiro a ela - era inverno. Pouco tempo depois eles foram visitá-la, e estava tão frio no quarto dela quanto estava fora da casa e a janela quebrada estava remendada com trapos. "Como pode isso, Maria Veniaminovna? Demos dinheiro pra você consertar a janela." E ela respondeu. "Dei o dinheiro para cobrir as necessidades da igreja."
Shostakovich, que acreditava que religião era superstição, não aprovou. "A igreja deve ter sérias necessidades," ele protestou" mas o clero não se senta no frio, depois de tudo, com janelas quebradas. Auto negação deveria ser um limite racional." Ele a acusou de se comportar como uma yurodivye, a palavra russa para um tolo santo, uma forma de santidade aos olhos da igreja.
Sua declaração pública de fé teve um custo. Apesar de seu gênio como uma música, de tempos em tempos ela era banida de casas de concertos e mais de uma vez na vida dela, ela foi permitida de viajar para fora da Rússia. Shostakovich lembra:
As posições religiosas dela estavam sob constante ataque da artilharia e até da cavalaria (na música Escola em Leningrado). Serebriakov, o diretor na época, tinha o hábito de fazer a então chamada  "incursão das brigadas de luz". Ele percebeu que Yudina era uma aluna de piano brilhante, mas ele não queria arriscar sua própria posição. Um dos desafios da brigaga de luz foi feito especificamente contra ela. A cavalaria se apressou e foi até a classe de Yudina e quis saber dela: "Você acredita em Deus?" Ela respondeu afirmativamente. "Ela estava promovendo propaganda religiosa dentre seus alunos?" Ela respondeu que a Constituição não proibia isso. Alguns dias depois uma transcrição da conversa feita por uma "pessoa desconhecida" apareceu, em um papel da Leningrado, que também trazia uma caricatura - Yudina em um hábito de freira, cercada de estudantes ajoelhados. E a legenda era algo sobre pregadores aparecendo no Conservatório. A cavalaria trilhou pesadamente, no entanto era a brigada de luz. Naturalmente, Yudina foi demitida depois disso.

De tempos em tempos, ela praticamente assinava sua sentença de morte. Talvez a história mais marcante na memória de Shostakovich seja a respeito de tal incidente:

   Em seus anos finais, Stalin parecia mais e mais como um louco, e acho que suas superstições cresceram.
O "Líder e Professor" sentava trancado em um de seus muitos aposentos, e se divertia de maneiras bizarras. Dizem que ele cortava imagens e fotos de revistas velhas e jornais, os colava em papeis, e os pendurava nas paredes. [Ele] não deixava ninguém entrar para vê-lo durante dias. Ele escutava muita rádio. Uma vez Stalin ligou para o Comite de Rádio e perguntou se eles tinham uma gravação do Concerto de Piano de Mozart n. 23, que tinha sido escutado na rádio no dia anterior. "Tocado por Yudina", ele acrescentou. Eles disseram a Stalin que claro que tinham. Na verdade, não havia gravação, pois o concerto tinha sido ao vivo. Mas eles tinham medo de dizer não a Stalin, ninguém nunca sabia que consequencias isso podia ter. Uma vida humana não significava nada para ele. Tudo o que você podia fazer era concordar, se submeter, ser um homem do sim, um homem do sim para um louco.
Stalin pediu que eles enviassem a gravação com a performance de Yudina para seu aposento. O Comite entrou em pânico, mas eles tinham que fazer alguma coisa. Eles chamaram Yudina e uma orquestra e gravaram na mesma noite. Todos estavam tremendo de pavor, menos Yudina, naturalmente. Mas ela era um caso especial, para ela, o oceano batia apenas nos joelhos.
Yudina me contou depois que eles deviam mandar o maestro para casa, ele estava tão apavorado que não podia pensar. Chamaram outro maestro, que tremia e deixava tudo misturado, confundindo a orquestra. Somente um terceiro maestro estava em forma para terminar a gravação.
Acho que esse foi um evento único na história da gravação - digo, mudar maestros três vezes em uma única noite. De qualquer forma, a gravação ficou pronta pela manhã. Fizeram uma única cópia em tempo recorde e mandaram para Stalin. Agora havia uma gravação.
Pouco depois, Yudina recebeu um envelope com duzentos rublos. Disseram a ela que vinha de ordens expressas de Stalin. Então ela escreveu uma carta para ele. Eu conheço essa carta dela, e sei que a história parece improvável. Yudina tinha muitas peculiaridades, mas posso dizer isso - ela nunca mentiu. Tenho certeza de que a história dela é verdadeira. Yudina escreveu algo assim em sua carta: " Te agradeço, Joseph Vissarionovich, por sua ajuda. Vou rezar por você dia e noite e pedir para o Senhor que perdoe seus imensos pecados diante do povo e do país. O Senhor é piedoso e Ele irá te perdoar.Dei o dinheiro para a igreja que assisto."

E Yudina enviou essa carta suicída a Stalin. Ele leu e não disse uma palavra, eles esperavam pelo menos uma contração de sombrancelha. Naturalmente, a ordem de prisão de Yudina foi preparada e o menor sinal de careta teria sido suficiente para sumir com os últimos traços dela. Mas Stalin estava em silêncio e deixou a carta de lado em silêncio. O movimento antecipado da sombrancelha não aconteceu.

Nada aconteceu a Yudina. Dizem que sua gravação de Mozart estava no tocador de música quando o "Líder e Professor" foi encontrado morto em seus aposentos. Foi a última coisa que ele escutou.

Shotakovich achava a exibição aberta de fé de Yudina uma bobgem, no entanto percebe-se em suas reclamações tanto inveja quanto temor. Em um tempo de medo de parar o coração, aqui estava alguém tão destemida quando São Jorge diante do dragão, alguém que preferia dar seus poucos rublos para reparar sua própria janela quebrado, que "publicava" com sua própria voz os poemas de escritores banidos, que se atraveu a dizer a Stalin que ele não estava além da piedade e perdão de Deus. Ela tinha um coração grande e puro. Não é de se espantar que o túmulo dela em Moscou seja um lugar de peregrinação desde a morte dela.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

EREB-SE 2013

Opa, de volta ao Red Mosquito depois de vários meses.

Bem galerinha é com muita alegria que volto aqui pra compartilhar algumas novidades da minha vida de Biólogo. Primeira coisa é que depois de oito anos nessa lida, concluí o curso, agora estou bacharel e licenciado. Foi um alívio sem precedentes, um peso que foi retirado das minhas costas. O aprendizado que tive ainda está bem vivo aqui dentro de mim e a felicidade por ter cumprido uma tarefa anda refletida nos meus olhos, mas o imenso leque que se abriu diante de mim me desafia. São tantos horizontes que posso seguir e ainda tantas coisas que acho que ainda me faltam, tantas práticas, tantas compreensões. Mas aí agora quero falar da segunda coisa "Biologicamente" positiva que foi meu ingresso em um grupo de estudantes de Bio aqui de São João del Rei, o Coletivo Espécie-Chave.
O Coletivo é composto por uma galera linda, cheia de ideias novas e que busca estudar e vivenciar a Biologia sob pontos de vista científicos sim, mas principalmente sociais e humanos. O Coletivo está ligado à Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia (ENEBio), que é um comando nacional que vem fazendo muitos encontros e debates pelo país afora, sempre sob uma ótica socialista e inclusiva! Estou feliz por estar trocando experiências com esse grupo, pois sinto que as falhas na minha formação estão sendo sanadas agora e são sanadas com a troca, com as vivências, com as lutas e com as reflexões! Estou estudando pra um Mestrado, quero me enveredar pelos caminhos do Ensino de Bio, apesar das dificuldades e falhas, acredito que estou crescendo enquanto profissional dessa área tão vasta e tão interessante que é a Biologia.
E junto com o Coletivo, senhoras e senhores, estou participando da construção de um dos encontros mais bacanas de todos os tempos: o EREB-Se (Encontro Regional dos Estudantes de Biologia da Região Sudeste). O encontro está sendo construído todo dentro de uma metodologia que é própria do Coletivo, mas também adaptada de uma metodologia conhecida como metodologia Josué de Castro. Esse método de ensino é ligado à Educação dos Sem-Terra, e é muito interessante. É um método que pauta, pela construção, pela ação e realização coletiva de tarefas. Nada de receber informações prontas passivamente. Não, juntos vamos à luta e construímos! O método é pensado de uma maneira que o conhecimento seja construído coletivamente, sempre com divisões iguais de tarefas e muitas atividades de sensibilização para os temas que propomos, que é o que chamamos de mística. A mística pode ser uma música, uma dança, uma poesia, uma brincadeira. São ações de sensibilização, nas quais, brincando, vamos ensinando e aprendendo!

É, isso me faz feliz...

O EREB-SE São João del Rei acontecerá no CTAN (Campus Tancredo Neves) da UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei ) entre os dias 09 e 12 de maio. Estamos esperando cerca de 300 estudantes da Região Sudeste que ficaram acampados juntos no maior campus da Universidade (pra quem não conhece - que é um campus meio rural, cheio de matas e um grande rio bem em frente... ou seja será um encontro maravilha onde, a partir das mesas de discussão estabeleceremos os rumos dos próximos encontros de Estudantes de Bio!) Se vc estuda Bio e taí me lendo não deixe de vir conhecer São João e participar desse encontro que será, como costumamos dizer, MARA!