sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

VAMOS ENTRAR NO BURACO DA FORMIGA...!

A mirmecocoria, síndrome de dispersão de sementes feita por formigas, uma verdadeira interação mutualistíca onde as duas espécies envolvidas (formigas e plantas) se beneficiam. (Vejam o post = Eu mirmecocorizo, tu mirmecocoriza, elas mirmecocorizam para maiores detalhes)

Existe uma hipótese dentro do estudo dessa interação, que diz que o fato da formiga carregar a semente para longe da planta-mãe (que pode secretar compostos secundários que impedem o desenvolvimento das sementes) garante a sobrevivência e germinação da semente e a protege de predadores (besouros, roedores e pássaros). Essa hipótese parece muito plausível,  mas acontece que ninguém comprovou isso ainda. Existem poucos estudos sobre a veracidade dessa hipótese, e os que foram feitos foram feitos com ervas e arbustos e ninguém sabe direito como isso funciona paras as espécies de árvores que são mirmecocóricas!

Os vídeos trazem algumas reflexões sobre o assunto!
OBS - A Espécie Arbórea, que utiliza a síndrome de dispersão mirmecocórica Croton sp é de fato da família das Euphorbiaceas, uma família da qual fazem parte a mamona e a coroa de cristo, por exemplo.
No vídeo eu fico em dúvida uma hora sobre qual a família da Croton mas confirmei a informação e é Euphorbiacea mesmo. A Croton tem sementes apenas em março.

DESCOBERTA DE BACTÉRIA COM ARSÊNICO NO DNA ABRE NOVAS PERSPECTIVAS PARA A BUSCA DE VIDA EXTRATERRESTRE.

      Uma bactéria que utiliza arsênico, no lugar do fósforo, para compor o DNA, foi encontrada em um lago salgado da Califórnia por cientistas da NASA. O arsênico é um elemento tóxico para a maioria dos seres vivos, que, no modo como os conhecemos são compostos por seis elementos básicos: carbono, oxigênio, nitrogênio, enxofre, fósforo e hidrogênio.
    Até essa descoberta recente, as pesquisas e explorações em busca de vida em outros planetas foram feitas sempre com intuito de procurar esses  seis elementos, que são essenciais para a composição da vida como conhecemos. O arsênico é um elemento químico muito próximo do fósforo na tabela periodíca, que geralmente é utilizado para compor a molécula de DNA, no núcleo das células dos seres vivos e também compõe o ATP, a "moeda energética" da célula. A GFAJ-1 (esse é o nome com que batizaram a bactéria "venenosa"), essa bactéria em forma de feijão formando colônias aí em cima, utiliza o arsênico de forma análoga ao fósforo para compor seu DNA e obter energia. O lago Mono, onde essa bactéria foi encontrada é saturado de arsênico e fósforo também, só que de alguma maneira esses organismos se adaptaram ao arsênico.
   O bacana dessa descoberta é que ela abre novas perspectivas para a busca de vida fora da Terra. Agora os cientistas estão formulando a hipótese de que se uma bactéria foi capaz de se desenvolver em um ambiente tão inóspito, por que isso não poderia acontecer em outros recintos do Espaço?
   Uma forma de vida tão curiosa leva a crer que novas e desconhecidas formas de vida são muito possíveis!


Lago Mono, onde a bactéria com arsênico foi encontrada:

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ECOLOGIA DE COMUNIDADES - O retorno.

Pra deixar comunitário, como diz o Prof. Fernando!

CAROS! Antes de tudo só quero corrigir uma bobagem que eu falo no vídeo!

HOTSPOT é uma área identificada como portadora de uma biodiversidade alta! São áreas extremamente delicadas e que demandam conservação. Existem 25 apenas no mundo todo e esses 25 hotspots abrigam cerca de 64% de toda a biodiversidade planetária.

Me parece que a prova é nessa semana e o assunto é Padrão de distribuição e riqueza em espécies.

Tem a ver biodiversidade!

Mas não é a biodiversidade que ouvimos falar nos meios de comunicação a toda hora. Essa biodiversidade se refere mais à quantidade de espécies e indíviduos que existe em determinado ambiente. E pode ser chamada também de riqueza em espécies.

Eu estou descobrindo um autor agora chamado Begon, ele é um papa aí da Ecologia e pra ele a biodiversidade deve ser analisada a partir de um enfoque que contemple tantos os fatores bióticos quanto abióticos. Como assim? Segundo a linha de raciocínio do Begon a biodiversidade é mais do que o número de espécies que vivem numa certa área, é a interação entre essas espécies e o meio. É também o conjunto das interações que as espécies vivem e como essas interações, com o meio e com outras espécies, leva a processos evolutivos!

É complexo pra caramba, tem vários modelos matemáticos, mas resumidamente, o Begon fala por exemplo de gradientes de distribuição da riqueza em espécies cresce conforme se aproxima dos trópicos, a riqueza em espécies é sempre maior nos trópicos. Isso por conta de vários fatores: os trópicos são mais expostos  à luz do sol, o que gera uma produtividade bruta (plantas) maior e uma maior diversidade vegetal leva consequentemente a uma maior diversidade animal.

Um outro estudo interessante que o Begon propõe e que vai cair na minha prova é a comparação dos nichos em que as espécies vivem e da sobreposição desses nichos. O nicho, para os leigos em ecologia, é como se fosse... "o emprego" de uma espécie, enquanto o hábitat seria o endereço. O nicho está relacionado com hábitos alimentares da espécie, ou hábitos reprodutivos, ou ainda papel ecológico no ecossistema. Alguns autores gostam de definir o nicho como sendo hipervolumétrico, ou seja como uma representação com várias dimensões (uma dimensão seria o hábito alimentar, a outra o papel na cadeia alimentar e assim por diante). Se levarmos em consideração que numa dada área haverá uma quantidade específica de recursos, teremos que considerar também, que os tamanhos populacionais e, com o tempo, (NÃO NOS ESQUEÇAMOS DA ESCALA), a própria riqueza em espécies (ou biodiversidade) dessa área, flutuará de acordo com a disponibilidade desses recursos.

A natureza é muito sábia e apresenta em diversos processos, um princípio econômico. Por exemplo, segundo esse estudo do Begon o número de espécies ou a riqueza em espécies aumenta conforme os nichos se sobreponham. Mas o que significa isso? A sobreposição de nichos, ocorre quando certos hábitos se misturam, ou se distinguem. Exemplo, espécies generalistas e especialistas. Quando existem espécies especialistas, significa que essas espécies utilizaram apenas uma parte dos recursos disponíveis, uma vez que ela é especialista e se alimenta apenas de determinado alimento específico. Com esse tipo de sobreposição há sobra dos recursos e maior probabilidade de novas espécies se instalando nessa comunidade!

Uma outra coisa interessante é o modo como as espécies se distribuem nas ilhas. As ilhas são bem especiais, elas não seguem os mesmos padrões que o continente, porque é um pequeno espaço de terra cercado por água e esse tanto de água dificulta o fluxo gênico e logo começam a acontecer padrões de distribuição diferentes, endêmicos da própria ilha. Geralmente novas espécies se formam e as vezes o que é comum em um lugar se torna raro na ilha. Achei bacana um comentário do Begon, de que esse racíocínio da ilha se aplica a vários outros tipos de "ilhas", por exemplo, uma árvore muito alta em um mar de árvores (pode existir toda uma comunidade ecológica instalada em um único topo de árvore), ou o topo de uma montanha,, que tem altitude e clima diferente do restante da montanha e consequentemente um outro padrão de distribuição das espécies!

Valeu galera, foi pra só pra esquentar pra prova!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Violência na Escola??

Oi Galera do Blog, to sumido!

Bem, final de semestre chegando, prazos se esgotando. Estou agora nos momentos finais da monografia que estou escrevendo, cujo tema é A influência do comportamento dos Estudantes na Aulas de Biologia na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa.

Ufa, título grande e grande trabalho também.
Já fazem quase uns três anos que fui designado pra fazer estágio nessa escola, é uma escola que fica no alto do morro, conta com uma galera bem diversificada, alunos de várias idades.

Escrever a monografia envolveu todo um trabalho de pesquisa, que compreendeu desde o entendimento do conceito de violencia até estudos da Psicologia da Educação. Eu precisei investigar se aquela escola era de fato violenta, como aparentava ser. A escola é cheia de sinais de violência, uma violência que alguns autores reconhecem como implícita, porque é algo sutil é um tratar revestido de preconceitos da escola para com o aluno.

Foi uma investigação interessante. Pra minha surpresa, eu acabei me afeiçoando à escola e até descobri que ela (a escola) nem é tão violenta assim. Dá pra tomar uns sustos lá dentro, mas nada demais quando comparamos à outras escolas violentas da região e às escolas dos grandes centros urbanos, onde a violência já é parte do dia a dia das pessoas.

Bem, por enquanto é isso pessoal. Essa semana imprimo a mono (acredito que está bem feita!) e dá-lhe datashow e gogó e cérebro bons pra apresentá-la para a banca (semana que vem socorro!)

P.S. Hoje já é dia 27 de janeiro e apresentei a monografia no dia 15 de dezembro. O sufoco e a ansiedade de fazer uma apresentação importante passaram e vim fazer alguns comentários sobre a experiência. Tirei nota 8,0. Queria ter ficado com 10 mas realmente algumas coisas não saíram tão bem no decorrer da minha pesquisa e por isso foi até uma nota bacana. Acho que fiz a coisa bem feita, preparei uma apresentação bonita, fiz boas fotos para apresentar a escola e os "personagens" envolvidos na monografia. Recebi alguns elogios que levantaram minha estima: "apresentação elegante", "domínio do conteúdo", "futuro grande professor de biologia", "você está muito mais centrado" e "linda dedicatória feita para sua filha!" Po, fui nas estrelas!!

Também recebi algumas críticas da banca que examinou a monografia, um pouco difíceis na hora, porque por mais que eu tivesse feito vários exercícios de respiração, yoga pra ficar tranquilo e dominar a apresentação, o que de fato aconteceu, no momento da crítica eu já estava meio cansado. Mas o tempo passou e refleti e percebi que as críticas também são muito boas. Ser criticado é interessante. Significa que estou mexendo com a percepção de alguém. Significa também um convite a participar mais a fazer cada vez melhor o que me é proposto fazer.

No caso desse trabalho da violência na escola a crítica que achei mais difícil, foi a de que não consegui sistematizar a pesquisa. Ou seja, não apresentei um monte de números para a banca (mas deixei muito claro, desde sempre, no texto e na apresentação, que se tratava de uma pesquisa qualitativa, que é uma metodologia de pesquisa que foca em algum caso, ou em um grupo de estudantes, como no meu caso). E a escola colaborou comigo mas não muito!

Mas enfim, etapa cumprida e alívio nos ombros!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Luz Azul

Não consegui enviar os clipes por e-mail, o blog é a única forma de compartilhá-lo sem cair em superexposições como youtube! Mas é o último prometo. É a nossa versão de outra música do Aterciopelados, Luz Azul.

Essa canção já é mais voltada para a vida espiritual.

Ah si se pone peluda lá coisa recuerde... la vida és color de rosa!

Algo como "Se estiver numa enrascada, lembre-se a vida é cor de rosa!"

Abaixo o clipe original que é um dos melhores que já vi na vida!

Si se pone peluda la coisa recuerde...

La vida

És color de rosa

Ah! A pausa absurda foi pra virar a página de cifras! Foi maallllllllllllll!!!!!!!!!!!!!!!

El Dorado

Hehehe... Nosso primeiro clipe. Fresquinho e compartilhado com exclusividade com os seguidores do Red Mosquito!!

Aterciopelados é uma banda colombiana maravihosa, tenho escutado bastante. Essa palavra (Aterciopelados) significa Aveludados, não tem nada a ver com pelado e é por essas e outras que eu não me arrisco muito com espanhol. Segundo uma amiga nossa, colombiana, é a melhor coisa já produzida na Colômbia (e realmente é muito bom!)

Essa canção, El Dorado, fala basicamente sobre o valor da vida. Sobre o quanto é maravihoso, importante e rico simplesmente estar vivo!

No es morado no
No es rosado no
No es plateado no
No es jaspeado no
Mira o que aqui lo tengo
Mira o que aqui lo tengo

Tipo, "Não é ne nhuma pedra preciosa, mas olha o que que eu tenho!" (A vida!)
Essa é a Júlia, minha namorada noiva, linda e inteligente.

Divirtam-se e perdoem o amadorismo!!!

Luz!

Uau, a Andrea Echeverri (vocalista do Aterciopelados) viu isso e me escreveu um e-mail:
hola waldir


yo tampoco hablo portugues- disculpa

hemos ido un par de veces a Brasil- a Portoalegre, Recife(abril prorock) y a Brasilia, pero hace ya tiempo

no tenemos planes de ir nuevamente

agradecemos tu interes y tus bonitas palabras

besitos

andrea
 
Eles não são uma graça?!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

LUTO, INDIGNAÇÃO E REVOLTA

A Biologia que me desculpe, mas vou abrir um pouco esse meu espaço para falar sobre um fato ocorrido que está me incomodando muito...

O último post, sobre Parasitologia, ironicamente comparou os parasitas biológicos (protozoários, platelmintos, fungos ) com políticos. Estamos em plena época de eleições aqui no Brasil e enquanto isso lá na minha cidade, Alto Paraíso de Goiás, uma cidade da paz, mística, maravilhosa sim, mas que de vez em quando é palco pra barbáries sem sentido!!! Assassinaram a queima roupa o Divaldo Rinco, que era prefeito da cidade!!!

Eu confesso que fui uma pessoa que criticou sim, a entrada do Divaldo, pela terceira vez na prefeitura da cidade. Mas isso justifica assassinar uma pessoa? Com fins pseudopolíticos!!! Pois quem fez isso não tem a menor noção do que é política, do que é cidadania, do que é ser racional, ser humano na hora de resolver os problemas! Não é com o uso da violência, da barbárie que se resolve nada, muito pelo contrário a sensação agora é que Alto Paraíso, Alto Paraíso, que foi umas melhores cidades do mundo.!, mas que agora nos transmite essa sensação de abandono, de trevas.

O Divaldo não estava sendo um prefeito muito bem visto, mas não merecia de forma alguma um fim como esse. Se hoje eu estou terminando meu primeiro curso superior, se tenho autonomia e visão política e crítica pra criticá-lo, devo também agradece-lo. Porque sou filho de Alto Paraíso. Porque fui educado sob a gestão desse prefeito. Porque se minha família tem uma casa hoje, é porque a Danusia, ex-esposa e ex-primeira dama foi quem lembrou da minha família e nos proporcionou esse bem. Porque a mãe do Divaldo, D. Romilda é quem educa e muito bem (analisando a escolinha dela com um olhar de quem é estudante de Educação!) os meus sobrinhos!!

Foi muito foda receber uma notícia dessas! De certa forma é como ter os sonhos despedaçados. Não só porque tenho carinho pela família do Divaldo, mas também por tudo que ele representava. Ele era prefeito de Alto Paraíso e uma pessoa espiritualizada, boa...Que conhecia de perto o povo da cidade, que lutava também pela paz! E de repente... isso??? É como se o mal estivesse vencendo...

O cara tem três filhas lindas, minhas amigas de infância... No carnaval desse ano estive com a filha mais nova dele a Milena, fizemos uma festa juntos e querem saber o que eu pensei quando a vi? Putz como a Milena está virando uma mulher linda! Ela cantou na festa que a gente estava fazendo, aquele vozeirão maravilhoso, parecido com a da Natália, irmã mais velha e cantora fina!!  Enquanto isso a Samara, sobrinha do Divaldo, me contava sobre um trabalho, em Biologia que está fazendo! Ela se formou bióloga pela  UnB! Dá um orgulho ver essas pessoas que a gente conhece desde sempre, crescendo, vivendo, se desenvolvendo! A Lorena, outra filha, também se formou pela UnB e é um xodó da galera toda de Alto Paraíso, acho que não tem quem não ame essa menina, linda pra caramba, gente finíssima e inteligente!

Eu sei que nada nesse mundo vai amenizar a dor que essas minhas queridas amigas estão sentindo (e que não mereciam de forma alguma), mas uma coisa eu gostaria de dizer: que se esse gesto idiota foi feito por um algum inimigo político do Divaldo, esse animal acabou de dar muito mais poder ao inimigo. Não, não estou dizendo que isso deveria ter acontecido, de maneira alguma... Mas é que o Divaldo continua vivo, brilhando forte no peito das três filhas talentosíssimas que tem. E é um talento, real, comprovado, reconhecido. O sucesso das três é certeiro, é absoluto e é legítimo! A memória, o carisma, e o trabalho do Divaldo continuam e CONTINUARÃO MUITO VIVOS! no peito de cada criança que ele ajudou a educar, de cada família que ele ajudou a organizar, de cada órgão, ONG, Associação, Entidade que ele ajudou (e eu sou testemunha disso também!)  a consolidar em Alto Paraíso de Goiás.

Não estou em Alto Paraíso, mas orei pelo Divaldo, que independentemente do que tenha feito em vida terrena, não merecia esse fim, mas assim como a família dele, eu sei que tem um lugar bem lindo esperando por ele lá na realidade espiritual!


OBRIGADO DIVALDO WILLIAN RINCO


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

E POR FALAR EM POLÍTICA...

Não, não gosto disso não...

Afinal, parasitismo é uma relação ecológica pra lá de desarmônica! Enquanto um trabalha, sobrevive, sintetiza alimento, ou tem determinada enzima específica, o outro fica lá, só sugando...Os parasitas, com o perdão da palavra, são tão filhos da puta que ao longo da história evolutiva das espécies esses camaradas (que podem ser vírus, bactérias, protozoários, helmintos ou platelmintos) passaram por diversas adaptações pra poder continuar ainda mais folgados: ventosas adaptadas para se fixar aos intestinos, atrofiamento de órgãos de locomoção, de repente só pra ter uma desculpinha "ai, não tenho perna, então vou ficar aqui dentro de você usando seus recursos energéticos....!", adaptações ao sistema imunológico do hospedeiro, em alguns casos, como por exemplo no do protozoário Trichomona vaginalis, um horror para a mulherada que o adquire, o parasita tem mecanismos moleculares para enganar os anticorpos do hospedeiro! É o cúmulo da folga não é mesmo?

Mas existe algo de positivo na existência desses malas conhecidos por Parasitas: graças a existência deles é que nós nos reproduzimos de forma sexuada! O que? Isso mesmo. Se um dos objetivos da vida é a transmissão do patrimônio genético da espécie para as gerações futuras seria muito mais simples se os organismos eucariotos simplesmente se reproduzissem por divisão binária ou brotamento. Seria muito mais barato em termos energéticos se a reprodução fosse simplesmente um processo de produzir clones. No entanto, se assim fosse, os folgados que estávamos falando lá em cima, se adaptariam com muito, mas muito mais facilidade, já que ao longo das gerações o patrimônio genético de espécies hospedeiras seria sempre o mesmo, facílimo de identificar e de se adaptar. Mas é aí que a reprodução sexuada entra pra nos ajudar (ufa, imagina se saísse um outro Neto, clone meu, do meu braço diretamente??), com a reprodução sexuada, o material genético é sempre recombinado, e é o mesmo, porém diferente a cada geração!

Bem, as espécies parasitárias de maior interesse para o estudo (analisando pelo ponto de vista do interesse médico humano) são as seguintes:
Trypanossoma cruzi -  É um protozoário que tem como primeiro hospedeiro o barbeiro e como segundo hospedeiro o homem. Por ter dois hospedeiros dizemos que esse parasita é heteroxeno. E ele causa a Doença de Chagas. A doença tem esse nome por causa do pesquisador Carlos Chagas, que descobriu que o protozoário causava infecção em humanos quando pesquisou uma menininha chamada Berenice. Berenice de menininha passou a vovó, pois morreu, depois de todo mundo que a pesquisou, com mais de 75 anos, tendo passado 73 anos infectada com o Trypanossoma cruzi, mas nesse caso parece que um se adaptou ao outro, o que deixou os cientistas ainda mais intrigados: como essa menininha resistiu tanto tempo?

Leshmania - O buraco é um pouco mais embaixo, mas basicamente é um protozoário, também heteroxeno, que transmite uma doença grave chamada Leshimaníose a humanos que são picados por mosquitos conhecidos como flebotomídeos.

Amoeba sp - Outra mala, diversificada pra caramba (várias espécies, vários formatos...) Mas tem uma espécie que costuma dar mais dor de cabeça que é a Entamoeba hystolitica, que causa amebíase, uma doença terrível na qual a pessoa fica defecando sangue. (Dentre outras coisas!).

Giardia sp - Acreditam que eu tive o desgosto de conhecer essa sujeita pessoalmente? Pois é, não fiquei doente não, acho que meu sistema imunológico estava ok, me alimento bem, mas deu num exame que fiz. A Giardia, esse protozoário monoxeno, ou seja que parasita diretamente o homem, é contaminado através de água contaminada (lembram que contei que adoro a água mágica da Serra de São José? Só pode ter sido isso) e alimentos mal lavados. Causa uma doença chamada Giardíase. Nos piores casos a Giardia se reproduz tanto que forma um tapete no intestino do hospedeiro que fica todo fudido!
Abaixo ilustrações dessa bandida:

Bom vou almoçar antes que elas me peguem.

Respondendo ao comentário da minha amiga Telma: sim, ela tem razão quando diz que tudo na natureza tem serventia, mas assim como na vergonhosa política brasileira, na ecologia essa relação chamada parasitismo ainda não tem muita explicação. Como é que pode haver uma relação tão desequilibrada, sendo que existem outras tantas relações equilibradas na natureza? (como o mutualismo e a cooperação). Bom, uma das hipóteses que responde mais ou menos essa dúvida é a hipótese da coevolução (outra é a hipótese da seleção sexual e diversidade do material genético, se nos reproduzíssemos por fissão binária por exemplo os parasitas simplesmente eliminariam os hospedeiros da face da Terra!) onde como numa Dança Evolucionária (nossa, adorei escrever essa expressão!), mas é exatamente isso, como numa Dança Evolucionária parasita se adapta ao hospedeiro e o hospedeiro ao parasita, ou seja, está sempre desenvolvendo novos mecanismos de defesa como o  fortalecimento do sistema imunológico, por exemplo. É como o velho ditado popular: Males que vêm pra bem. Quer dizer, por mais chatos que os parasitas sejam, ao longo da Evolução, com as adaptações, eles acabam fortalecendo os hospedeiros!



terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ecologia das Comunidades

Não, não é um estudo sobre o EnCa (Encontro Nacional das Comunidades Alternativas). É uma disciplina que começo a fazer amanhã.

Em ecologia, existem vários conceitos para Comunidade, mas um dos mais simples e bem aceitos seria o conjunto de espécies que ocupam uma determinada área. Enquanto a população é definida como o conjunto de indivíduos de uma mesma espécie numa dada área, a Comunidade já é um termo mais abrangente, mais comunitário, (rsss) ou seja, a comunidade é uma assembléia de populações de espécies que ocorrem juntas no espaço e no tempo.

Estou sendo simplista, pois afinal um dos objetivos desse blog é que ele seja também uma ferramenta didática. Ao longo de, sei lá, dois séculos de existência da Ecologia, Comunidade foi definida de diferentes maneiras.  Como assim? Existem diferentes conceitos para a mesma coisa, analisada sob diferentes óticas. Por exemplo, alguns autores consideram que comunidades são verdadeiros superorganismos, cujas espécies componentes seriam muito unidas, tanto no presente quanto durante suas histórias evolutivas compartilhadas.  Para a chamada Escola de Clements (1916) a comunidade estaria para a população como o tecido estaria para as células: intimamente ligado e interdependente.

Já Gleason (1926), contrariamente, imaginou um conceito individualista de comunidades. Segundo ele e outros autores as relações entre espécies coexistentes é apenas o resultado de suas similaridades quanto a exigências e tolerâncias. (É como se os indivíduos se agrupassem numa área de acordo com seus "interesses" em comum: um clima propício para a sobrevivência, a disponibilidade de alimentos naquele ambiente, dentre outros fatores.

Existem ainda outras maneiras de se classificar as comunidades (mas eu ainda preciso assimilá-las melhor). Basicamente, podemos pegar um grupo de espécies e classificá-los com base em:

1 - Hábitos alimentares- Chamamos esses grupamentos de GUILDAS. Por exemplo: A Guilda dos carnívoros do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

2  - Hábitat - A comunidade de animais e plantas da Chapada dos Veadeiros...

3 - Afinidade de espécies - A comunidade de macacos da Chapada dos Veadeiros.

E por enquanto é só. A disciplina começa amanhã, estou só esquentando.

Depois conto como foi! 
FONTE:ECOLOGIA: De indivíduos a Ecossistemas - BEGON, Michael. Ed. artmed.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Santuário das Libélulas Felizes...

Então, bom dia.

Existe, aqui na Universidade de São João del Rey, praticamente ao lado da sala que trabalho, um mestrado chamado "Bioengenharia Ecossistêmica". Estou bem de olho nesse mestrado, com bastante vontade de fazer e duzentas mil dúvidas. Lendo um pouco da bibliografia recomendada, me lembrei de algumas aulas que tive na disciplina chamada Limnologia.

Limnologia é uma ciência que pode ser também chamada de Ecologia dos Ecossistemas de Água Doce.

É muito legal.  Basicamente, é um estudo dos lagos e rios e de toda a fauna e flora desses ambientes.

Nesse final de semana, estive na Serra de São José. É uma serra, muito bonita por sinal, que divide os municípios de São João del Rey e Tiradentes MG. Essa serra tem predominantemente vegetação do tipo cerrado, é um lugar lindo mas que está correndo alguns riscos, pois existe uma mineradora e muitos turistas inconsequentes que estão poluindo o local. Pra combater esse impacto que está ameaçando alguns delicados ecossistemas que essa Serra ainda abriga, alguns técnicos do governo de Minas, (o  IEF - Instituto Estadual de Florestas é quem estava encabeçando isso) tomaram uma medida preventiva e transformaram a região no Parque Estadual da Serra de São José. Existem vários projetinhos de manejo, manejo de trilha e da própria UC (Unidade de Conservação), mas na prática a coisa ainda está meio ao léo, quer dizer, as trilhas são abertas a qualquer um, não há nenhuma espécie de orientação, ou de informações ecológicas sobre o local.

Uma das justificativas usadas para transformar a Serra de São José em Unidade de Conservação oficialmente protegida, foi a grande diversidade de espécies de libélulas que habitam a Serra de São José! Pra terem uma idéia, o vídeo institucional que assisti dizia que 55% das espécies de libélulas de Minas Gerais podem ser encontradas na Serra. É libélula pra caramba! Isso equivaleria, se não me engano, a 20 % de todas as espécies brasileiras. 20% pode parecer um número pequeno, mas lembrem-se que o Brasil é o país que ainda abriga a maior biodiversidade do mundo!

55% das éspecies de libélulas mineiras, significam 120 espécies diferentes de libélulas, numa área pequena, segundo a bióloga Sônia Rigueira, que é da UFMG e está desenvolvendo uma pesquisa sobre as libélulas da Serra de São José.

Lá em cima da Serra, existe uma trilha alternativa que leva até a cidade de Tiradentes. No meio dessa trilha existe uma nascente com uma água boa, que as pessoas bebem (eu adoro!). Graças a existência dessa água, essa parte da Serra permaneceu mais preservada e foi ali que descobriram um espécie endêmica (que ocorre só naquele local) de libélula.

Numa outra disciplina, Gestão Ambiental, fizemos um documentário sobre os impactos causados na litosfera (camada de solo da crostra terrestre) local. Fomos até uma mineradora que existe no local, entrevistamos o gerente e ele nos disse que possui uma concessão para funcionar durante 800 anos! 800!

Imaginem quantas espécies interessantes que já não existiram ali e foram extintas??

Existe uma equipe, uma galera da limnologia aqui da Universidade que desenvolve um projeto de pesquisa nos rios (streams) dessa área. 

Por falar em libélula, vocês sabiam que esse inseto, da Classe ODONATA, quando está no estádio (é estádio mesmo, não é de futebol, mas é o nome técnico dado aos estágios fisiológicos que uma espécie passa) de larva é um dos piores predadores do ambiente aquático? A larva é feinha que dói, mas é grandona e bem maior que os outros insetos pequenos que frequentam o ambiente aquático. Ela pode até ser feia (quando criança) e predadora, mas eu não posso deixar de exaltar a importância ecológica dessa amiguinha. Os predadores a primeira vista são assustadores, mas se analisarmos de uma maneira mais holística, mais ligado ao processo como um todo, poderemos perceber que os predadores são na verdade como lixeiros, ou seja, a ação deles, equilibra o tamanho das populações por exemplo. No caso da predação feita pelas larvas de Odonata, ou libélulas, elas estão impedindo que o ambiente fique sobrecarregado, superlotado de pequeniníssimos crustráceos, mosquinhas e até girinos!

A libélula adulta é bem linda, mas a larva.... Vejam que horrorosa (mas não sem importância)

Parece uma cigarrinha, né?
Mas sabem outra coisa legal sobre elas? A aerodinâmica. Eu acho impossível observar libélulas sem compará-las a pequenos helicópteros! Acho muito parecido. Parece que elas foram especialmente desenhadas para isso. Dorsalmente, libélulas possuem dois pares de asas. O que faz ela voar rápido e ter um ótimo desempenho áereo, é que os dois pares de asas delas se movimentam independentemente e ela controla isso. Num primeiro momento ela bate um par de asas, num outro, outro. (par).

Em 2008 apresentei um seminário só sobre libélulas. Pra buscar referência pra esse trabalho, descobri, na internet, um banco de dados inglês que tráz informações sobre boa parte das espécies de libelulas existentes no mundo. Lá, na Inglaterra, os caras tem um museu só de libélulas! Esse é o endereço do web site do museu britânico das libélulas  http://www.dragonflysoc.org.uk/. Tem um banco de imagens maravilhoso!


Essa Serra aí ao lado dessas casinhas históricas é onde originalmente existe um Santuário das Libélulas Felizes. As propostas de criação e manutenção de uma Unidade de Conservação são muito boas. Mas estão só no papel.

Infelizmente, essa beleza toda vem sendo substituída por farofeiros, tarados, adeptos de um piscinão de Ramos, animais mortos, restos de churrascos e muito lixo...!


Agora, está rolando um movimento pela federalização da Serra de São José. Infelizmente, todo o sistema de governo brasileiro ainda é meio podre. É que mais uma vez ,na História da criação de Unidades de Conservação, o governo vem, cheio de propostas "pseudoconservacionistas", desapropria uma porção de gente, não paga pelas terras de ninguém e sequer instala uma Unidade de Conservação decente! Tá parecendo que o governo do Estado não está dando conta do recado, então quem sabe se federalizar a coisa não melhora, já que agora existe no MMA (Ministério do Meio Ambiente) uma subdivisão, conhecida por Insituto Chico Mendes que cuida exclusivamente das Unidades de Conservação? Depois da criação do Instituto Chico Mendes a coisa melhorou e muito nas UCs Brasil afora!

É isso aí, a pressão popular tem rolado, vamos pressionar um pouco e ver o resultado. Pela Serra de São José, que não pode mais suportar as agressões que estão fazendo com ela!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

TIME IS AN ILUSION, BABY...

"Time is an illusion baby
I am on your side
Love is a confusion baby
You'll never hide
Come to the conclusion baby
Your love has died
Time is an illusion baby "

Já dizia essa velha canção lado B, chamada "Pathetic Senses"completamente de garagem (pois acho que quase ninguém conhece), dos irlandeses The Cranberries. Parece que a Dolores O'riordan estava certa. O tempo é realmente uma ilusão. Pelo menos é isso o que agora os físicos estão descobrindo.

Apesar de que absolutamente tudo na vida parece ter uma relação com o tempo e essa relação se dá de uma forma linear, ou seja de trás pra frente, como sugere o modelo newtoniano das leis da física, o que entendemos como tempo, na verdade não passa disso: uma relação de algo com outro algo.

Parece complicado e realmente o é. Pelas novas leis da física, conhecidas também por física quântica ou mecânica quântica, o tempo é totalmente relativo. É uma criação humana, que serve só pra gente não enlouquecer, segundo alguns autores.

Lembram daquelas velhas máximas de doutrinas diversas que sempre diziam " Viva o presente, aproveite o presente..." Mais uma vez, os velhos estavam corretos:  Ou quase corretos.  As equações da nova física  não nos dizem que eventos estão acontecendo agora - elas são como um "mapa" mas sem uma referência do tipo "Você está aqui!" O momento presente não existe dentro dessas equações e portanto também não existe um fluxo do tempo.  Além disso, Einstein postulou, na Teoria da Relatividade, que não há presente  especiais, mas momentos igualmente reais. Fundamentalmente, o futuro não é mais aberto que o passado.

É uma loucura. Muitos físicos convencionais estão relutantes contra novas descobertas do campo da física quântica. Essa nova forma de pensar, com um tempo que não existe e com um campo infinito e estático onde imaginávamos uma linha reta, permite com que imaginemos algumas proezas: se o tempo não existe e tudo é o que sempre foi, passado, presente e futuro estão a nossa disposição para serem acessados.

Isaac Newton imaginou um conceito de tempo que até algum tempo atrás respondia muitas questões da física. Acontece que o tempo newtoniano é descrito como algo reto linear como uma sequencia de eventos contínua com uma "seta" indicando o futuro. Desde o ínício do século que alguns pesquisadores da área da física perceberam que a coisa não era assim tão simples. E que nunca houve um "relógio universal" que determinasse o sentido das coisas no universo.

Carlo Roveli, da Universidade do Mediterrâneo em Marselha, França tem uma tese intitulada "Esqueça o tempo". Ele e um físico inglês chamado Julian Barbour tentam reescrever a mecânica quântica sem o tempo, conforme a relatividade geral parece requerer.

Bem, não vou entrar em muitos detalhes, até porque tem muita discussão sobre esse assunto e confesso que não estou entendendo muito. Mas é fato: o tempo acabou. (Se é que ele já existiu!)

Adaptado da Scientific American Brasil - Julho  2010

RED MOSQUITO: Eu, a revista Planeta, o James Lovelock e a Teoria...

RED MOSQUITO: Eu, a revista Planeta, o James Lovelock e a Teoria...: "'A Terra é nossa MãeDevemos cuidar delaUnidos minha gente somos Um'(Canção popular que cantamos numa peça de educação ambiental em São Thomé..."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Eu mirmecocorizo, tu mirmecocoriza, Elas mirmecocorizam...


Eu não, mas as formigas sim.

Mirmecocoria é o nome dado para um processo de dispersão de sementes feito por formigas. A dispersão de sementes é um fenômeno (principalmente a dispersão feita por formigas ou mirmecocoria) ainda pouco compreendido dentro da Ecologia. Dispersão significa levar a semente para um outro lugar, mais distante da planta mãe, (que gera sombra e muitas vezes atrapalha o crescimento da espécie vegetal) um lugar mais seguro com mais disponibilidade de luz e água, longe de predadores (geralmente pequenos roedores e besouros, que adoram comer sementes novinhas).

A transmissão de genes ao longo de gerações (seja em plantas ou em animais) é um 'fenômeno-chave" dentro da história da vida. Alguns autores consideram inclusive que esse é o objetivo-mor, a razão principal da vida: a transmissão de genes. Existe até uma definição de espécie (que não me agrada nem um pouco) que diz que as espécies são um "reservatório genético intermediário"... Acho que a vida é um pouco mais do que isso, mas enfim, o fato é que muito do que se observa na natureza, muitos processos adaptativos e muitos tipos de comportamentos observados nas espécies animais e vegetais são explicados como uma forma, digamos, de "garantir o lugar" daquela espécie no planeta. Tudo é em função da transmissão desse "patrimônio genético" para frente, pro futuro!

O estudo da dispersão é importante porque é uma estratégia evolutiva das plantas, ou seja é dessa forma, através da dispersão, que elas conseguem "marcar seu território" e deixar seu patrimônio genético sobreviver ao longo dos diferentes lugares e épocas. O Richard Dawkins diz que não tem nada de fenomenal nisso são apenas mecanismos de coadaptação, mas não estou nem aí pra ele, acho bonito e fenomenal pra caramba! Ao longo do tempo, as espécies foram se transformando e ganhando adaptações para atrair esses dispersores. Existem vários tipos de dispersores: pássaros, insetos, a água, o vento, mas vou focar aqui apenas nas formigas.

A estratégia evolutiva das plantas para atrair formiguinhas que carregassem suas sementes, foi o desenvolvimento de uma espécie de bônus para aquelas formigas que levassem as sementes. Esse bônus é chamado também de arilo ou elaiossomo, uma proteção lipídica (ou gordurosa) ao redor das sementes. O mecanismo funciona de forma mutualística, ou seja, como uma troca: A planta é dispersada e tem sua sobrevivência garantida e as formigas ganham um alimento extra, a camada protetora lipídica, que serve para alimentar as larvas.

Essa justa troca parece ter dado certo no jogo da Evolução. Estima-se que 11.000 espécies vegetais utilizam dessa estratégia para dispersar suas sementes! Esse número representa 4.5 % de todas as espécies vegetais, distribuídos em 334 gêneros, em 77 famílias diferentes! É planta pra caramba, sobrevivendo com apoio das formigas! Membros de algumas famílias botânicas populares, como asteráceas, bromeliáceas e euforbiáceas (ex.mamona), utilizam a estratégia evolutiva da Síndrome de dispersão mirmecocórica.

Dentre as espécies de formigas que realizam essa tarefa podemos citar ( A identificação não está muito precisa, porque os artigos geralmente expõem só os gêneros que realizam a síndrome e não a espécie específica, e isso confunde um pouco):

Formica rufa, ou formiga saúva;


Acromyrmex subterraneus subterraneus, uma pequenininha clara, com 4 espinhos dorsais da família Formicidae. Conhecida como quenquén.
Atta sexdens rubropilosa, Essa tem 3 espinhos dorsais, e é um tipo de formiga cortadeira. Adora uma folha de laranjeira e é conhecida também como saúva.

Ectatomma edentatum - É uma pretinha comprida, bastante comum da família Formicidae.

Pachycondyla sp. - Parece nome de sultão, Paquistão, sei lá, mas trata-se na verdade de um indivíduo da subfamília Poneriine, feinha pra caramba.

Pheidole sp. - Pertencem à família Formicidae

Camponotus rufipes - Essa é uma formiga ruiva e noturna que gosta de atacar colméias e realiza síndrome de dispersão mirmecocórica!


Dentre outras espécies.
Escrevi um projetinho de iniciação científica sobre essa síndrome de dispersão. Meu trabalho agora é identificar, conhecer a fundo as espécies vegetais e de formigas que realizam esse trabalho. Além disso preciso comprovar uma hipótese que os teóricos chamam de “Hipótese da Fuga do Predador”. Essa hipótese diz, em suma, que o fato das formigas dispersarem as sementes de alguns vegetais, é uma estratégia certeira de fuga e proteção contra os predadores naturais dessas sementes (besouros e roedores). Parece que ninguém conseguiu medir alguns dados (como taxas de remoção das sementes, por exemplo) que comprovem que a mirmecocoria faz realmente diferença na proteção das sementes contra os predadores.

Para testar a veracidade dessa hipótese, imaginei a demarcação de dois transectos (em ecologia é uma área previamente determinada, as vezes imaginária), com espécies vegetais com síndrome de dispersão mirmecocórica. Em uma das áreas haveria “livre acesso” às formigas e na outra eu teria que dar um jeito de isolar as plantas das formigas. A utilização de iscas (venenos) é recomendada para esse tipo de experimento, mas não sei até que ponto é confiável e até que ponto não é muito impactante! Seria preciso também contar e demarcar as sementes das duas áreas. Então depois de algum tempo eu teria que contar tudo de novo, observando qual foi a diferença entre o ambiente com formigas e o sem formigas. Quais seriam as taxas de remoção observadas nas duas áreas? E de germinação? As sementes ficariam intactas na ausência de formigas ou seriam facilmente devoradas pelos predadores? A ausência das formigas daria espaço para os besouros e roedores fazerem a “Festa das sementes gostosas?”

São questões que preciso responder. Tenho buscado pelo menos observar as espécies que utilizam essa síndrome como estratégia de dispersão, mas o que dificulta é que não tenho tido muita convivência com qualquer uma dessas espécies e uma observação desse tipo demanda um certo tempo e dedicação. Mas enfim, aos poucos vou fazendo, uma hora chego às minhas conclusões!

Valeu formigas!@

ADENDO: Galera, minha pesquisa na Universidade é sobre esse assunto, e eu acabo de saber que tirei 9,0 na segunda etapa do processo de iniciação científica! Um peso a menos. Empolgado com a novidade, fui buscar mais coisas recentes sobre mirmecocoria e até encontrei um início de resposta pra minha pergunta sobre se as formigas são realmente eficientes na defesa contra predadores de sementes.

Elas são. Surpreendentemente, os cientistas observaram que a maioria das sementes que são dispersadas por formigas, após terem seus elaiossomos ( a camadinha lipídica que a formiga fatura) removidos, as formigas, olha que show! instintivamente levam o resto dessa semente para um lugar onde exista um solo fértil, de uma maneira que a semente tenha sua germinação facilitada e garantida!

Essa natureza é muito perfeita meu Deus!

FONTE: Szabolcs Lengyel (et al) CONVERGENT EVOLUTION OF SEED DISPERSION BY ANTS, AND PHYLOGENY AND BIOGEOGRAPHY IN FLOWERING PLANTS: A GLOBAL SURVEY;
Ethel Fernandes de Oliveira Peternelli2 ESPÉCIES DE FORMIGAS QUE INTERAGEM  COM AS SEMENTES DE Mabea fistulifera Mart. (EUPHORBIACEAE)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Divã

Parece que alguém votou em indicações de filmes na barra de pesquisas do blog (e acho que fui eu mesmo, testando o negócio...), então resolvi indicar mais um filme bacana que assisti nesse final de semana.

Um divã em Nova York é uma comédia inteligente que conta a história de um psicanalista que está estressado e resolve tirar umas férias. Ele mora em Nova York, mas resolve trocar, por uns tempos, de apartamento com uma pessoa da França. A francesa que toma emprestado o apartamento novaiorquino do psicanalista, começa, meio que por acidente a atender os pacientes. E para surpresa de todos, de forma muito simples, só escutando e falando "hmm-hmm", a moça consegue curar a maioria dos pacientes! Ela tem tanto sucesso nos seus atendimentos que a notícia acaba indo parar nos ouvidos do psicanalista, que se disfarça de paciente e vai investigar os métodos da moça que o substituiu.

Além de render algumas boas risadas, o filme mostrou também que vários problemas na vida podem ser solucionados de uma maneira muito mais simples do que imaginamos, bastar estar aberto e perceptivo!


Artificializaram o natural!

Todos já devem ter ouvido pelo menos uma notícia rápida sobre a nova façanha da ciência: vida artificial.

Mas como é que fizeram isso e como foi possível?

Os méritos dessa novidade são atribuídos ao pesquisador norte-americano Craig Venter, que vem tentando desenvolver um genoma sintético a pelo menos 15 anos. Ainda não descobri a formação exata do Venter, não sei se ele é biólogo, bioquímico, geneticista. Mas o fato, é que o cara conseguiu desenvolver um software que imita o DNA. Um DNA construído em computador. Depois de quinze anos tentando, ele com certeza adquiriu algumas habilidades nessa tarefa de construir um DNA. Esse DNA recém sintetizado (e não é um sintetizado natural, como outros processos de síntese que temos em biologia...) tem até algumas coisas a mais gravadas, umas passagens da bíblia. Uma vez que o software do DNA estava pronto, Venter e sua equipe "imprimiu" o DNA sintético numa bactéria viva de verdade, e então a natureza se encarregou em continuar o serviço. A bactéria se reproduziu e reproduziu o DNA sintético com ela.

A descoberta, sem sombra de dúvida é surpreendente, mas o que intriga é a falta de previsão do que essa nova forma de vida poderá fazer. Como se comportará uma vida artificial ao ser lançada no meio ambiente?
Ninguém sabe a resposta exata para essa questão mas é certo que haveria alguma especie de desequilíbrio ambiental

Por precaução, os cientistas afirmam que as bactérias sintéticas ficarão confinadas a ambientes controlados, laboratórios.

A idéia é detectar gens que façam as bactérias de vida artificial produzir combustíveis e remédios. Existem projetos também de criação de bactérias que reduziriam a emissão de gases causadores de efeito estufa.

A Revista Scientific American desse mês afirmou que a descoberta da vida artificial é uma das decobertas recentes que transformará radicalmente nosso modo de viver. Agora é esperar pra ver!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Da série: "Lugares em que vivi" - São João del Rey (parte II)

Depois de nascer e crescer no Planalto Central e de ter andado por alguns lugares do Brasil, resolvi, há dois anos que terminaria minha faculdade e então descobri essa cidade história da região dos Campos das Vertentes, onde agora moro.

É difícil. Eu costumo dizer que é uma relação intensa de amor e ódio. São João del Rey é uma cidade que pode te cativar, te fazer ficar apaixonado pelas ruas históricas e pelas pessoas e cultura locais. Mas também pode te matar de raiva. Vou listar alguns pontos que considero positivos e negativos na cidade. Vou começar pelos positivos pra não falarem que sou pessimista demais

PONTOS POSITIVOS:

Cultura - São João é uma cidade que consegue se destacar das demais pela cultura que rola por aqui. Na primeira vez que vim conhecer a cidade, fiquei hospedado na república dos amigos Tapuias. Logo na primeira noite, me apresentaram um vídeo super alternativo com canções da Tropicália. O Caetano Veloso ainda teen e o Raul Seixas numa performance nunca antes vista por mim. Existe aqui um Teatro Municipal, histórico, chique pra caramba, onde rolam várias apresentações, performances, shows, peças. A cidade respira cultura, é uma das suas marcas fortes, foi até considerada Capital Brasileira da Cultura pelo Ministério em 2007. É comum ver galeras super inteligentes, discutindo livros e teorias. Isso é bom.

Música - É também muito marcante e uma característica positiva da cidade. Existe uma música rural, mineira, com temas campestres, mas que é muito diferente da música rural de Goiás, que são porcarias. A musicalidade mineira é muito bela. A semana passada fui visitar o  conservatório, a escola de música do Estado. É muito surreal pra mim, você vai passando pelas salas e então corais vão saindo de dentro de cada uma. Instrumentos musicais os mais inusitados podem ser vistos ali. É uma coisa meio parecida com a escola do Harry Potter, meio mágica, são várias pessoas se musicalizando ao mesmo tempo, é realmente muito legal! E a grande maioria das pessoas tem uma boa cultura musical, isso alivia a cabeça!

Universidade Federal - É o que move a cidade. A Universidade tem se expandido, abriga agora sete campi em três ou quatro cidades. Eu vivo metendo o pau na falta de estrutura ou de zelo com muita coisa que observo aqui dentro. Mas ao mesmo tempo confesso que eu adoro a Universidade. A biblioteca, o movimento militante estudantil, alguns professores que conseguem desenvolver um bom trabalho, junto aos seus alunos e junto à comunidade. Acho um barato essa coisa de ter acesso à ciência de ponta.

Pessoas - Não são muitas, mas existem algumas pessoas bem especiais por aqui. Pessoas inteligentes e as vezes simples, que se mostram preocupadas, mas sem querer controlar. Algumas pessoas realmente valem a pena.

Centro Histórico - É bem bonito. Existem sete igrejas barrocas lindíssimas no centro da cidade e algumas lendas que envolvem essas construções do século XVII. Dizem as lendas que existe uma rede subterrânea de túneias que interligam as igrejas. Sempre gostei desse tipo de coisa!

Agora os
PONTOS NEGATIVOS

SUJEIRA - Parece uma mistura do centro do Rio com alguns lugares escrotos de São Paulo somados e compactados num único lugar. É foda. A cidade tem um estrangulamento de tudo no Centro Histórico. Bastea ter um final de semana ou feriado que lota de gente, de lixo, de carros, de água poluída, de panfletaiada jogada pelas ruas.  Esse é um dos aspectos mais tristes, a meu ver, aqui em São João, porque a gente percebe que FOI um lugar lindo, mas o impacto da ocupação urbana se faz muito presente. No centro da cidade existe um rio canalizado que vez ou outra entope e causa uma enchente na cidade. È triste, mas mais triste ainda foi descobrir que o órgão municipal responsável pelo saneamento já foi informado, há mais de vinte anos que não se poderia jogar esgoto no canal citado, e é exatamente o que eles fazem até hoje. É podre o lugar!

ENCANAMENTO - A cidade é toda do século XVII! Morei em três casas até agora e todas (sem contar as várias pessoas que já se queixaram comigo sobre esse problema ) todas tem problemas com encanamento. Sempre há um cano estourado e uma águinha sendo desperdiçada em alguma esquina de São João.´Sempre falta água. Outro dia eu brinquei que a cidade era uma cidade do futuro. Aqui a guerra por água já começou. Isso me deixa muito mal.

POLÍTICA  - Brasília, que é a capital brasileira tem mais pensadores livres do que aqui. Tudo fede a política, e daquelas bem mal feitas, com chantagens, ameaças, compra de votos, puxações de saco.... Muita coisa é atrapalhada por conta desse feeling político que existe aqui. Um saco!

PESSOAS - Ao mesmo tempo que existem aquelas maravilhosas, existem também umas tantas que não valem nada a pena. Tem sido difícil encontrar pessoas realmente confiáveis, existe ainda muita poluição mental, muito jogo de interesses, muita traição... Infelizmente.

DROGAS E MOVIMENTO GLS  - Nada contra. Mas tem horas que vulgarizam tudo e exageram nas doses. Isso reflete numa cidade feia, pobre, abandonada... E em pessoas com a mentalidade tão suja quanto as ruas.

CARROS - É outro ponto fooda! O trânsito é super mal organizado e os motoristas super mal educados. Eu fui atropelado noutro dia desses! Tava andando de bike, o cara parado num cruzamento, eu fui passar ele acelerou e bateu na minha bicicleta! Eu sei que eu sou meio bobão, mas nesse dia esse cara não tinha razão. É tradicional a falta de educação no trânsito do povo mineiro. Teve uma vez também que eu estava andando em Santa Cruz, que é uma microcidadezinha colada em São joão, um bairro praticamente quando vi um homem alucinado atropelar um menino de uns doze anos que cruzou de bicicleta na sua frente. O homem tava meio na contra mão, mas mesmo assim desceu do carro e começou a xingar o molequinho que ficou caído lá chorando. Me baixou um justiceiro, comecei a brigar com o cara, perguntei se ele não tinha vergonha na cara e se não iria levar a criança para um hospital. Meio que inspirei os vizinhos que também viram a cena, e começaram a ir fechando o cerco desse homem até que ele resolveu levar o garoto no hospital. Escroto demais.

SAÚDE - Se você precisar de atendimento médico gratuito aqui, você precisa ficar no mínimo 12 horas de madrugada, numa fila pra tentar AGENDAR uma consulta. Se for velhinho 15 ou 16 horas no mínimo. Ironias a parte, é um problema muito escroto, muito feio e muito sério. As pessoas são massacradas, humilhadas, mal-tratadas. Não tem cabimento e não tem noção. Eu achava que o Sudeste fosse a região mais desenvolvida do país, mas eu estava enganado.



Bem, tirando os pontos negativos acho que tem sido uma boa experiência São João!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Eu, a revista Planeta, o James Lovelock e a Teoria de Gaia - Haverá salvação para algum de nós?

"A Terra é nossa Mãe
Devemos cuidar dela
Unidos minha gente somos Um"
(Canção popular que cantamos numa peça de educação ambiental em São Thomé!)

A revista planeta é uma revista pseudomísticocientífica que fazia o maior sucesso na década de 70 e agora é meio esquecida pelo público geral. Haviam pilhas e pilhas de "Planeta" na casa da minha mãe, que foi uma colecionadora nos tempos áureos da publicação. Quando eu tinha uns 12 anos de idade ficava deitado lendo nas revistas da minha mãe matérias do tipo " Descoberto Médium Voador na Alemanha"; "OVNI avistado no interior de Minas Gerais"; " Garotinhas irlandensas fotografam fadas de verdade" (parece anúncio de pornografia, mas eles mostravam umas fotos cheias de fuligem e umas setas indicando as "fadas"), e por aí vai. Nessa semana enquanto ia almoçar, vi a veterana Revista Planeta exposta nas bancas com uma matéria sobre sustentabilidade (!) na capa. Comprei uma, pra ver sobre o que eles estavam falando e pra matar a saudade dos casos fantásticos trazidos pela revista.  Agora , os textos deles estão vindo numa linha mais  do tipo "Somos cientistas sérios!", com matérias fundamentadas por autoridades científicas e que tratavam de assuntos como a Teoria de Gaia, Paleontologia, Mudanças Climáticas. De uma revista mística ela passou a revista científica, não sei se foi do dia pra noite e não sei qual das duas linhas editoriais é pior!

Reduzido a mais uma atração fantástica, está na matéria de capa da Planeta desse mês, o célebre criador da Teoria de Gaia, um simpático senhor que nós estudantes de Biologia conhecemos muito bem, pois ele é citado num dos livros texto que utilizamos no curso : Ecologia Básica de E. Odum. Estou falando de ninguém mais ninguém menos que James Lovelock.

Apesar de ser uma celebridade no mundo das ciências ambientais, o velhinho é a simpatia em pessoa, contrariando tantas outras autoridades científicas chatas e carrancudas que temos que engolir academia afora. Mas acho que estou passando um pouco o carro na frente dos bois, deixem-me explicar a Teoria e o porquê dela ser criticada pela comunidade científica.

Concebida e aceita em 1979, com a publicação do livro "A TERRA É UM SER VIVO - A hipótese de Gaia", a hipótese de Gaia, basicamente, diz que o planeta, como um todo é um ser vivo.  Há todo um romantismo envolvido com essa hipótese, mas a despeito disso James Lovelock é um médico e biofísico por formação, um homem que concebeu vários aparelhos engenhosos. A hipótese parece ser mais uma "viagem legal" condizente com a Revista Planeta, mas na verdade é algo bem mais sério e complexo do que isso.  Lovelock começou a formular esse teoria 40 anos atrás, quando a NASA o procurou com interesse em utilizar um dos aparelhos criados por ele. Era um aparelho que detectava substâncias a uma concentração muito baixa, por meio do método da cromatografia gasosa. A NASA estava desenvolvendo um programa de pesquisas em Marte e então contratou o Lovelock para adaptar sua invenção à parafernália de exploração espacial da NASA.

Figura que é, logo que chegou na NASA, Lovelock disse para os seus chefes que a idéia que eles estavam tendo era simplesmente ridícula. A galera estava partindo do preceito que as formas de vida marcianas seriam iguais àquelas do deserto da Califórnia! Os biólogos da NASA, que estavam tocando essa idéia estúpida ficaram putíssimos com o Lovelock  e deram com a língua nos dentes: logo o Lovelock foi chamado por seu diretor, que lhe deu a maior bronca e pediu a Lovelock que lhe levasse uma "proposta construtiva".

Apertado pela chefia, James Lovelock passou então três noites em claro, pensando em que solução poderia arranjar para a melhoria da missão de exploração a Marte. Então ele teve uma luz: audaciosamente, defendeu a idéia de que ao desvendarmos a composição química da atmosfera marciana pela análise da luz vinda daquele planeta, poderíamos talvez perceber se essa atmosfera carrega a marca de seres que nela colhem nutrientes e lançam dejetos. A proposta que Lovelock fez a NASA, foi de que eles acoplassem um espectrofotômetro a um telescópio, observassem a atmosfera marciana e colhessem informações a partir dessa observações. As impressões da luz no espectrofotômetro daria pistas da existência ou não de vida naquela atmosfera.
(Explicaldir Neto explica: espectrofotômetro é um aparelho que, basicamente, analisa a incidência de luz sobre determinada amostra. Existem vários modelos, uns cacarecos, outro ultramodernos. O espectrofotômetro mede valores que chamamos de reflectância e/ou absorbância. Tipo assim: dada uma amostra com uma solução qualquer e um raio de luz incidente sobre essa amostra os valores de absorbância detectariam o quanto essa solução absorveu da luz, e os valores de reflectância, que são inversamente proporcionais aos da absorbância, detectariam o quanto de luz restante foi refletido. Vixi. Clareou ou piorou?)

Os caras da NASA ficaram então ainda mais putos e despediram o Lovelock! Um maluco beleza lá de São Thomé das Letras tem uma canção que é assim : "Quebra tudo e chama NASA! Quebra tudo e chama a NASA!" Depois dessa poderia ser Chame todos e quebre a NASA!

Mas voltando à trajetória do Lovelock e à Teoria. O cara foi despedido, mas não desistiu de seus planos e descobertas. A idéia de observar a atmosfera marciana em busca de sinais de vida alienígena, rendeu algumas publicações na revista Nature e foi o ínicio da principal teoria elaborada por esse pesquisador.  Essas publicações na revista Nature traziam resultados de dois anos de observações da atmosfera marciana. Lovelock se baseava na segunda lei da termodinâmica, conhecida por nós estudantes de Ecologia, que é a lei que diz que o universo está sempre orientado em sentido do caos, lei da entropia. Sabendo que tudo no universo se move mesmo é em direção ao caos, Lovelock estranhou as análises da atmosfera marciana onde existia um equilíbrio químico e dominado em 95% pelo dióxido de carbono, uma molécula rara, pois na Terra esses dados se comportavam de maneira muito diferente. "Na nossa atmosfera o dióxido de carbono é raro. Aqui, porém, encontramos oxigênio em abundância, que coexiste com o metano e outras substâncias muito reativas". Lovelock concluiu então que é a vida que renova sem cessar todas as moléculas da atmosfera e afasta a Terra do equilíbrio químico visto em Marte e Vênus. Esses dois planetas, portanto, estão mortos, enquanto a Terra (opa!) está viva!

Esse foi o ponta pé inicial da Teoria. A partir disso, várias analogias começaram a ser feitas, primeiro por Lovelock e depois por outros teóricos. Por exemplo,  a atmosfera terrestre de composição química tão distante do equilíbrio permaneceu notavelmente estável ao longo das eras. Um pouco como o sangue de um ser vivo. Isso se observa também na temperatura (infelizmente, afetada pelos vírus da Terra, os humanos, como eles falavam no filme Matrix): à escala de centenas de milhões de anos, ela exibe uma surpreendente estabilidade. A radiação solar aumentou em um terço, desde o nascimento da Terra, e essa propriedade é comparada à propriedade dos seres vivos de manterem a temperatura interna constante, homeotermia.

E chegamos agora a parte mais interessante (e controversa) da teoria. Lovelock constata que tanto a temperatura quanto a composição química da Terra tendem a valores quase ótimos para a criatura viva - como se o objetivo do sistema fosse favorecer a vida.  De fato, uma atmosfera com duas vezes mais oxigênio causaria incêndios incessantes, enquanto o oxigênio mais rarefeito traria sérias complicações metabólicas aos seres vivos.  Para Lovelock, a Terra é uma espécie em simbiose (uma associação biológica favorável a todas as partes que a compõem) gigante entre todos os seres vivos e o meio mineral, um superorganismo que se conserva no estado mais favorável possível à vida por meio de mecanismos de retroação.

Eu li o último livro do Lovelock, chamado A vingança de Gaia. Nesse livro, ele explica que a Terra é viva sim, está ameaçada e é muito, mas muito mais forte do que nós seres humanos.  Esse livro é um pouco assustador, o Lovelock tá meio terrorista (ou realista?) nele, diz que já não tem mais muita esperança para a espécie humana, que a água vai acabar mesmo... Um dos pontos mais polêmicos desse livro é quando ele fala sobre as fontes de energia que deverão ser utilizadas pelas gerações futuras. Muito controversamente, ele defende a energia nuclear! Apesar de muito perigosa, se for extremamente bem feita, uma usina movida a energia nuclear seria o mais limpo tipo de energia. Eu não me lembro se ele fala sobre páineis solares, ah, lembrei, ele diz que é muito caro (!?). O pessoal da revista perguntou para o Lovelock: " Gaia está em perigo" e a resposta foi: " Gaia precisamente, não!" " Mas se o aumento da temperatura que prevejo, de 6 a 8 graus centígrados, se produzir, a civilização poderá ser ameaçada: termos uma extinção em massa de espécies e a agricultura se tornará impossível em boa parte da superfície do planeta. O alimento será insuficiente, haverá migrações de populações inteiras, conflitos, a humanidade se concentrará ao redor das regiões polares..."

Apocalíptico o negócio.

Numa das analogias que li na Teoria de Gaia, a humanidade é comparada ao sistema nervoso de Gaia. Bom, nisso discordo um pouco. Ou então diria que se é assim, Gaia é uma menina, no mínimo masoquista. Mas enfim....

A Teoria de Gaia é bem aceita na comunidade científica. Mas recebe algumas críticas, como a que eu fiz no início do post, por ser um nome meio "romântico". Segundo Lovelock a Teoria teria sido muito menos criticada se se chamasse apenas Teoria Biogeoquímica.

Mas se fosse assim ela seria um pouco mais chata! Bem, espero sinceramente que o Lovelock esteja errado com suas previsões terroristas e que nós, seres humanos possamos aprender melhor como respeitar mais essa nossa mãe.

FONTE: Revista Planeta, Julho 2010 (com adaptações).