quinta-feira, 9 de junho de 2011

Joisten Gaarden X Richard Dawkins

Galera,


Estou empolgadíssimo terminando de ler o livro O dia do Curinga, de Joisten Gaarden, mesmo autor de O mundo de Sofia. ( E de outro, excelente e triste chamado O outro lado do Espelho).

Nesse livro do Gaarden há um paralelo entre um mundo fantasioso e a filosofia, na vida real, e acabei encontrando nisso também um paralelo com a Teoria da Evolução das Espécies. O livro é cheio de metalinguagem, conta a história de um garotinho, filho de um filósofo que está viajando com o pai pela Europa a procura da mãe que fugiu para se encontrar e virou modelo na Grécia. Certo dia, numa padaria de uma cidadezinha um padeiro dá um pãozinho de presente para o menino e diz que tem uma surpresa. E dentro do pão o menino encontra um mini livrinho e ao longo da viagem o garotinho vai lendo o livrinho, que de certa forma parece que vai contar a história do próprio menino e  o menino tem tantas reflexões que parece que sou eu mesmo lendo a história (ou qualquer outro leitor). Metalinguagem dupla, genial!
No minilivrinho há a história de um naufrágo que chegou em uma ilha perdida no meio do Atlântico. (Vou resumir a história para não virar Spoiler e também porque vou frisar mais a parte que se relaciona à teoria da Evolução). O náufrago ficou muitos anos sozinho nessa ilha, que tinha frutas estranhas e bichos de seis patas. A única companhia do náufrago (Frode) era um baralho com 52 cartas. Depois de jogar infinitas vezes um jogo de paciência invetado por ele mesmo, Frode começa a imaginar que cada carta do baralho era uma pessoa, suas únicas companhias. Depois de alguns anos, quando as cartas do baralho já estavam destruídas pelo tempo e pela salinidade, as pessoas imaginadas por Frode começam a surgir de verdade na ilha. Primeiro um Valete de Ouros, depois um Rei de Espadas. Anões vivos com símbolos das cartas. Depois a Ás de Ouros, que é uma musa inspiradora. Durante muito tempo Frode acha que está delirando, mas um dia outro náufrago chega na ilha e vê as mesmas figuras.

As cartas de baralho vivas, viviam alienadamente, só conseguiam entender as regras de um jogo, mas não perguntavam sobre suas origens. Até que um dia surge o Curinga que não é de nenhum naipe, não é submetido a nenhum rei é apenas ele mesmo. O Curinga então percebe que aquelas pessoas daquela ilha eram muito bitoladas, organizadinhas vivendo como se fossem cartas. E certo dia resolve então perguntar para Frode porque ele achava que aquelas pessoas viviam tão organizadas, será que alguém havia criado aquilo tudo? E Frode responde. _ Pode ser que seja obra do acaso. Imagine se você jogar vários gravetos para cima eles podem cair de forma organizada. Eu sempre achei que a Teoria da Evolução e o Criacionismo são a mesma coisa, como duas faces da mesma moeda. Eu só queria que os dois lados dessa discussão deixassem de ser tão cabeça duras. Religiosos continuam acreditando que Deus é um velhinho que está no céu e criou tudo em 7 dias. Por outro lado, Richard Dawkins, principal expoente moderno da Teoria da Evolução financia um acampamento que pagará um prêmio para quem provar que Deus não existe, isso sem falar na velha máxima que diz que Charles Darwin matou Deus.  E todas as mutações que levaram a imensa biodiversidade que observamos no nosso planeta hoje, a todas adaptações e formas de vida espetaculares, são explicadas com o  que eu sempre irei achar absurdo: o random, o acaso, o estocástico.

Assim como o Frode na história. "É tudo obra do acaso!" Frode resolve perguntar então para o Curinga
-Curinga e se eu te disesse que você, e tudo isso aqui, essa ilha e essas pessoas são uma criação da minha mente, o que você faria?

E sabem o que o Curinga responde:

- Eu teria que te matar , pois preciso manter minha dignidade!

Acho que nem preciso falar mais nada.


4 comentários:

  1. Olá, Neto. Eu não li "O dia do Curinga", mas acho que compreendi a relação que você fez entre a metáfora dos gravetos organizados fortuitamente e a organização dos seres vivos. Contudo, aquilo que você acha absurdo - o "random", a aleatoriedade - não poderia estar mais distante do funcionamento por trás da evolução biológica e da visão de qualquer estudioso sério dela. A ideia de que toda a complexidade existente é fruto do mero acaso é tão improvável que chega a ser intuitivamente cômica.

    Se há um único momento em toda a história da vida em que podemos assumir a completa aleatoriedade de fatores (e em termos biológicos apenas, não químicos, não físicos) é a sua origem. Até pouco antes deste momento, as possibilidades eram virtualmente infinitas. A maior parte delas, aliás, apontaria para a inexistência da vida. Aqui sim, pode-se dizer, aleatoriamente moléculas teriam se organizado de tal forma que pudessem se autoreplicar. Mas, a partir daí, sua forma e funcionamento passam imediatamente a reduzir toda a infinidade de possibilidades anterior em algumas poucas viáveis. Uma interação ou reação incorreta, e adeus vida.

    A teoria da evolução biológica nem mesmo trata da origem da vida (apesar de certos mecanismos dela poderem ser extrapolados até aí). Ela trata da modificação da vida, uma vez que ela já existe. Se ela já existe, ela já possui um conjunto bem definido de propriedades, fora das quais ela não seria considerada vida. Tais propriedades, à medida que se somam nas limitadas possibilidades viáveis, formam novos conjuntos, diferentes - propriedades emergentes -, os quais limitam ainda mais as próximas possibilidades.

    Todo este processo, portanto, está longe de ser realmente aleatório. Quando fala-se em aleatoriedade em evolução - como no caso das mutações - é necessário compreender-se que existe todo um mecanismo preexistente limitando as possibilidades de mudança. Por um mero artefato da linguagem, podemos erroneamente pensar que um número natural qualquer entre 0 e infinito é tão aleatório quanto um número natural qualquer entre 0 e 10.

    Não é possível (ou pelo menos provável), por exemplo, a substituição de um nucleotídeo existente por um diferente ("zignina", digamos) pois mesmo se ele fosse sintetizado por engano, ele não conseguiria pareamento com seu complementar, ou não seria copiado, ou transcrito, ou traduzido, ou compatível com os ribossomos ou qualquer tRNA existente na célula. A aleatoriedade em uma mutação, portanto, é aleatória apenas dentro do limitadíssimo conjunto de possibilidades de ocorrência.

    A complexidade, portanto, não surge do caos. Ela surge gradativamente a partir de incontáveis estágios anteriores menos complexos de organização, cada um deles tendo limitado o conjunto de propriedades dos estágios seguintes com suas próprias. E já que você citou o Dawkins, no seu livro "A escalada do monte improvável" ele fala, basicamente, sobre esse assunto.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  2. É um pensamento extremamente pessoal, mas o que eu queria dizer com esse texto é que Deus é o próprio processo da Evolução. Não um velhinho que comanda tudo. Mas a própria mudança constante, o imenso e as vezes absurdo jogo de tentativa e erro. E tudo isso meio que se sincroniza, quer dizer se havia uma espécie que não estava "feliz", adaptada da melhor forma às mudanças de seu ambiente, ela simplesmente deixava de existir e abria espaço para novas espécies, mais complexas, melhor adaptadas. Mais "felizes" em sua existência. E isso também é Deus, eu acho. Por isso costumo dizer que Criação e Evolução são a mesma coisa.

    ResponderExcluir
  3. Se a ação de um ser inteligente não pode ser diferenciada do "jogo de tentativa e erro" emergente de processos caóticos, então não há porque chamá-lo de inteligente.

    Se a ação de Deus não é diferente daquilo que se poderia esperar na sua ausência, então não temos porque chamá-lo de Deus. Tradicionalmente, Deus seria aquele cara cujas ações, aos nossos olhos, revelariam alguma intencionalidade, seja ele um velhinho ou não. E não é o que parece acontecer.

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir