quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Novamente no buraco da formiga

Oi Galera!

Bem, e já se foram sete anos da minha vida nessa luta acadêmica. Esse mês tive que pedir uma extrapolação do prazo máximo de integralização (vergonha!), mas é que como mudei de faculdade foi como se tivesse começado de novo. Estou quase quase terminando, mas uma das coisas que ainda me amarra é a pesquisa com a mirmecocoria. Lembram da relação harmônica (simbiótica) entre as formigas e diversas espécies de plantas?

Pois é. Agora é pra valer. Já identifiquei as espécies de formiga e de planta com que vou trabalhar e agora não tem mais volta. Tenho que fazer um experimento que comprove ou refute uma hipótese da Ecologia de Interações, mais especificamente da interação conhecida como Mirmecocoria. Essa hipótese é chamada de Hipótese da Fuga do Predador, uma hipótese que diz que o fato da formiga carregar a semente, protege a semente, garante a germinação e reduz a pressão de predação.

Bem, particularmente, eu acho que a hipótese é verdadeira. Se levarmos em consideração que as sementes quando estão exatamente embaixo das árvores parentais não se desenvolvem (deixam de se desenvolver porque a competição intra e interespecífica é bem maior nesse local - podem haver compostos secundários, que são substâncias tóxicas utilizadas como defesa em várias espécies vegetais - que impedem o desenvolvimento das sementes), o pé de uma árvore cheio de sementes é um prato, literalmente, cheio para os predadores (besouros, pássaros e roedores, basicamente). Se as formigas fazem o trabalho de retirar a semente desse ambiente, a levando para um local mais propício, tudo leva a crer que isso reduz a pressão de predação!

Alguns pesquisadores testaram essa hipótese, com ervas e arbustos, e chegaram a mesma conclusão que eu. Mas acontece que ninguém no mundo fez esse teste para as árvores tropicais que se relacionam com as formigas! E o abelhudo aqui tá se metendo a fazer isso!

A espécie vegetal com que estamos trabalhando é uma árvore, da célebre família da Euphorbiáceas. Uma árvore bastante comum identificada até agora apenas como Croton sp . Voltei de férias na semana passada e conheci uns lugares bem bacanas - Ibitipoca, o primeiro parque em Minas Gerais que ganhou quase todo meu respeito de aspirante a ecólogo (depois monto um post para explicar porque "quase" ganhou meu respeito), Três Lagoas no Mato Grosso do Sul, onde mora minha filhinha e São Paulo, onde fui comprar algumas coisinhas e rever amigos. Estou comentando aqui sobre o itinerário das minhas férias porque ao longo de todo o caminho a Croton sp me acompanhou. Durante esses meses em que a observei (final de dezembro, janeiro e começo de fevereiro), a Croton apareceu muito por toda a estrada e também dentro do parque estadual do Ibitipoca. È tempo de floração dessa espécie, cujas flores se organizam em pequenas inflorescências, que parecem espigas (não me lembro mais qual o termo técnico correto pra esse tipo de inflorescência). E daqui a alguns meses as sementes estarão formadas e começarão a cair: um verdadeiro prato cheio, pra mim, para as formigas e para os predadores! Em Juíz de Fora, MG e também na cidade de Lima Duarte, observei uma ocorrência extremamente alta da Croton sp. Haviam verdadeiros corredores dessa espécie, que por estar no ápice da floração, mostrou uma exuberância formidável!  Ter observado esses corredores, me deixou com uma convicção ainda maior de que a Hipotése da Fuga do Predador é verdadeira. Pensem comigo: Se haviam tantas espécies numa área tão extensa (estive em três estados brasileiros dentro desses três meses), significa que as formigas estão tendo sucesso na sua tarefa de dispersar as sementes. Senão ela não seria tão comum! Mas claro, isso pode ser só uma coincidência!

Ainda não identificamos a espécie exata de formiga com que vou ter que trabalhar (the very specie!), mas as espécies mais comuns que fazem esse tipo de dispersão aqui no Brasil são a Atta sp e a Pheidole sp. Creio que eu vá trabalhar com uma dessas duas!

Agora o problema: esse teste consiste basicamente em contar um número igual de sementes em duas áreas, uma na qual os predadores tenham acesso às sementes e outra na qual somente as formigas tenham acesso, e depois recontar as sementes que sobraram e tentar descobrir o destino de algumas, para ver se de fato foram protegidas da predação.  Mas como isolar essas áreas?



Um dos artigos que li, relatou uma experiencia feita com uma gaiola. As sementes ficavam dentro de uma gaiola e foi dessa maneira que os predadores ficaram sem acesso às sementes. Mas esse teste considerava os predadores vertebrados, os pássaros. Para besouros uma gaiola seria muito grande, mas uma amiga minha me sugeriu a utilização de um tecido chamado Tule, que é uma trama bem fina, por onde passariam as formigas mas não os besouros. Adorei a idéia, mas aí veio mais uma dúvida: como as sementes, que são bem maiores que as formigas irão passar pelo tule? Ainda não sei exatamente como vai ser, mas pensei em pendurar a gaiola e deixar uma pequena parte entreaberta de modo que as formigas possam sair carregando a semente.

Bom, agora é continuar lendo, pesquisando, e assim que as sementes começarem a cair lá estarei eu com uma gaiola um tule, um esmalte (pra marcar as sementes e não perder as referencias)!!!

Valeu!

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